quarta-feira, 12 de julho de 2017

CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE

CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE

"BREVES PINCELADAS"




Após prolongada doença, esperava-se a todo o momento a notícia da morte sofrida, dramática do Clube Recreativo. O caso não seria para menos:  sem associados, ou com poucos (a certa altura deu-se o "êxodo" dos "fregueses" mais desfavorecidos financeiramente e, gradualmente, o desaparecimento físico de muitos dos "habitués"), sem direcção, sem os fins a que se destinou... Iria mesmo dar-lhe a "breca", o Clube iria morrer abandonado, sem assistência nem editais distribuídos pelos locais do costume, sem velório, cerimónias fúnebres, sequer funeral por manifesta falta de recursos do "falecido"?
"Uf"!... Nesta terra, de vez em quando, acontecem alguns "milagres". Sensibilizado por amigos, que são para as ocasiões (os que ainda por lá andavam, uma minoria, a baterem cartas nas mesas gastas pelo tempo ou a tacarem no bilhar de "snnoker"), lá apareceu alguém, o Eng. Rui Leal, proprietário da fracção, que, num simples estalar de dedos, se "doutorou" em medicina e encontrou o remédio para atenuar a dor e aumentar a esperança de vida deste fragilizado Clube Recreativo, reconstruindo o espaço, em avançado estado de degradação, uma autêntica operação plástica que o vai certamente rejuvenescer com o auxílio de novos associados, muitos deles "recrutados" mesmo ali ao lado.
Está, assim, recuperada a tradição de um Clube activo desde 1926 mas que, infelizmente, não possuía arquivo compatível com o seu longo e honroso passado.
No entanto, aceitei, mesmo que em traços breves, limitado pela inexistência de suficientes elementos de trabalho, compilar algumas páginas da história desta quase centenária Instituição local, com o rigor possível, entrega e alguma paixão.
Para a elaboração do estudo socorri-me  dos elementos dispersos em documentação avulsa (sobretudo actas das assembleias gerais), em colecções fotográficas espalhadas nos álbuns do próprio Clube, na leitura de páginas de antigos periódicos concelhios e regionais e na memorização de depoimentos de sócios que durante décadas sempre acompanharam o pulsar do seu quotidiano. Um avivar de saudade dos mais velhos, um despertar da curiosidade dos mais novos.
E tudo começou assim:

FUNDAÇÃO
No dia 16 de Outubro de 1926 (meses antes, o país arrancava politicamente para um novo ciclo, após o derrube da Primeira República, instaurada que foi a ditadura pelo golpe militar de 28 de Maio), a convite de Serafim Moura, Agostinho Mendes, Ernesto Taipa e Adolfo da Costa Machado, reuniu, na moradia de João Correia da Fonseca, no lugar da Feira, um grupo de cidadãos locais (42), no intuito de ser colmatada uma lacuna existente na freguesia: a constituição (por proposta de Adolfo da Costa Machado, aprovada por unanimidade) de uma associação ou sociedade recreativa, para reunião, cultivo e diversão de freamundenses interessados, através de jogos lícitos, sobretudo de cartas (mais tarde apelidados de "baratos") e leituras morais e educativas.
O presidente da mesa da Assembleia Geral, Joaquim Augusto Pereira Gomes, ali constituído, fez-se secretariar por João Correia da Fonseca Júnior e Agostinho Mendes Leal, que delegaram os desígnios da Associação (CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE), com sede estabelecida no salão superior de um prédio, pertença de Ernesto Gomes Taipa, no Alto da Feira - há indícios de que os convívios iniciais tiveram lugar numa casa em S. Francisco -, nos membros que iriam compor a primeira direcção provisória:
Presidente: Ernesto Gomes Taipa
Secretário: Adolfo da Costa Machado
Tesoureiro: Serafim da Silva Moura
Vogais: Agostinho Mendes Leal e Henrique Felgueiras da Silva.


Ernesto Gomes Taipa

PRIMÓRDIOS
Não tardaram as primeiras deliberações: no acto da admissão de associados, os mesmos eram sujeitos a quota ou jóia no valor de 20$00 (vinte escudos).  Aos sócios mais carentes financeiramente, o prazo de pagamento foi-lhes prorrogado por 30 dias. A quota mensal ficou definida em 2$00 (dois escudos) - quota essa que, conjuntamente com a jóia de entrada, iria sofrer ajustes, alguns substanciais, com o decorrer dos anos.
Em Assembleia Geral Ordinária, agendada para o último dia do ano da fundação, por proposta de Libório Pinto, escolhido no seio dos presentes para presidir à sessão, face ao exemplar trabalho desenvolvido até então por todos os elementos directivos, o mesmo elenco foi aprovado por unanimidade e aclamação para dar continuidade à gestão durante o ano de 1927.
O saldo apurado no exercício financeiro cifrava-se em 503$70. Tinha-se verificado uma receita total de 1.480$00, sendo a despesa de 976$30. Nada mau.
Resolvida, ainda, a constituição de uma comissão, composta pelos membros da direcção actual, conjuntamente com os associados Luís Gabriel Marques da Costa e Bernardino Ferreira Rego, para a resolução dos casos considerados de "força maior": admissão ou demissão de qualquer sócio.
Não se pense, contudo, que o Clube era de pendor exclusivamente elitista. Longe disso. Frequentava-o a "boa" sociedade, de diferentes classes, sujeita, isso sim, a um veredicto final após proposta apresentada e apreciada por "residentes" nomeados para o efeito. É certo que o espaço não servia a "todos". Apenas aos que possuíam algum desafogo financeiro. A maioria da população era pobre, imperava um forte espírito rural no seu seio. O dinheiro que amealhava mal chegava para o pão sobre a mesa.


Grupo de sócios do Clube recreativo posam para fotografia após passeio

As direcções continuavam provisórias. Só em 1929, após a elaboração dos Estatutos da Associação, de que se incumbiu o sócio Joaquim Pinto Pereira Gomes, os novos orgãos sociais ficaram constituídos por 12 membros, distribuídos pela Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal - mais tarde a Direcção passaria a ser formada por 7 elementos, conforme preceituava o Artigo 5º dos referidos Estatutos -, a partir de então propostos obrigatoriamente a eleição no terceiro Domingo de Dezembro de cada ano, estabelecendo-se, 30 dias após, aproximadamente, uma sessão ordinária para a tomada de posse dos novos corpos gerentes, aprovação de actas, e leitura, discussão e votação do relatório e contas do exercício anterior, precedido do parecer do Conselho Fiscal. Tudo direitinho.
Uns bons anos após (1962), foi deliberado proceder-se à organização de Regulamento Interno, a cargo de Fernando Eduardo Santos.

INICIATIVAS
Nos princípios da década de 30, a vida do Clube não se ressentiu muito da crise existente, da desfavorável conjuntura económica, social e política.
De tal forma que, sendo o espaço também de tertúlia, onde se abordavam os mais diversos temas, sempre "virados" para o progresso de Freamunde,  no dia 19 de Março de 1930 foi criada a comissão de melhoramentos da Terra (a "luz" que iria movimentar vontades para o seu desenvolvimento), liderada pelo carismático sócio, Leopoldo Pontes Saraiva, capaz promotor da elevação cultural de Freamunde, burgo que com gostoso prazer o adoptou como um dos filhos predilectos - Leopoldo Saraiva era natural de Azurara, Vila do Conde. Criador, inclusive, num dos mandatos por si presidido (1934), de uma Biblioteca, de alcance social transcendente; de um arquivo que devia ser precioso de recordações, quase todo destroçado pela acção do tempo, pela mão do... homem. Falta saber onde foi parar grande parte do seu património. E se "tudo" fosse guardado numa sala, tipo museu, que perpetuasse  a história possível das nossas associações, muitas por sinal? Adiante...
Num ápice, passaram das intenções aos actos: Ajardinamento do Largo de Santo António; incentivo à criação da primeira Corporação de Bombeiros, com êxito. 


1º Quartel, em S. Francisco, e 1º Carro da " bomba"

Foi do Recreativo que surgiu a ideia e o esforço para o nascimento da Corporação e o convite, constante, a vários instrutores que exercitaram com  saber e disciplina os voluntários freamundenses. Referência especial para Eduardo Vila Pouca, segundo comandante dos bombeiros de Vizela,  pelos serviços prestados à nossa Associação Humanitária, mais tarde (1936) nomeado sócio honorário do Clube Recreativo, sempre grato e reconhecido. Tanto assim que, noutro âmbito, já havia proposto, anteriormente, para sócio benemérito da Associação, António Rodrigues de Carvalho, da cidade do Porto, por materiais oferecidos, sobretudo tintas, essenciais para as obras efectuadas na sede social.
Em Agosto do citado ano de 1930, aventou-se a hipótese de extinção das comarcas de Paços de Ferreira e Lousada, e a formação de um concelho em Freamunde. Uma delegação de "homens" desta Terra, a maioria sócios do Clube, deslocou-se, para o efeito, a Lisboa. Ilusões frustradas. Ficou, no entanto, a intenção. A vontade.
O desejo, a "fama" dos freamundenses sempre lutarem pela sua independência  já vem, como se depreende, de longe. Tal como o... "Constantino".
A "vida" da Associação continuava. As benfeitorias na Terra não paravam. Missão sempre revigorada pelo espírito forte e empreendedor de sucessivas gerações de associados do Recreativo. Tudo saía das suas ideias e iniciativas.
Por exemplo: no ano de 1935, foi concluído o Coreto do Largo de Santo António. A parte em pedra, até à primeira cobertura, foi custeada pelos sócios do Clube. O restante foi a expensas da Junta de Freguesia com subsídio do Estado. A direcção da obra esteve a cargo do arquitecto Narciso Garcia, de Negrelos. O empreiteiro veio da Vila das Aves, de nome Aristides, que integrava nos seus quadros o freamundense Aprígio "Rolha", da Gandarela, grande artista em cimento armado.
Também o lavadouro de Além foi inaugurado. 


Coreto

Em 1944 foi aprovada, extraordinariamente, quotização de 7$50 por sócio, no intuito de custear a cruz iluminada, aposta a uma outra da torre paroquial, cujas despesas importaram em 400$00.
Três anos mais tarde (1947), na coroação da imagem de Nª Srª de Fátima, a grinalda foi a expensas dos sócios do Recreativo.
A procissão foi presidida pelo pároco José Joaquim Moreira, também ele associado do Clube, o seu último acto público em Freamunde pois foi paroquiar, por sua expressa vontade, a freguesia de Paços de Brandão.




No dia 10 de Agosto de 1959, o Clube Recreativo, em memória ao seu malogrado sócio Ribeiro da Silva ( natural de Lordelo mas com coração freamundense, um dos melhores ciclistas nacionais de todos os tempos), instituiu um prémio monetário ao 1º corredor da Volta a Portugal a passar nesta localidade, encontrando-se a meta no Centro da Vila. O final da etapa estava marcado para a cidade do Porto. Agostinho Ferreira, do Académico, único ciclista do concelho presente nesta edição da Volta, foi o primeiro a cortar o risco branco, arrecadando assim o prémio monetário. As ruas desta Vila encheram-se de uma multidão ávida de ver e aplaudir os esforçados ares do pedal.


Ribeiro da Silva

ACTIVIDADES LÚDICAS
A prática do futebol oficial nesta freguesia tornou-se realidade em 1933, ano da fundação do Freamunde Sport Clube, inicialmente apelidado de "Onze vermelhos".
Pelado do "Carvalhal" disponível e aí tivemos, no dia de Reis, 6 de Janeiro de 1937, uma animada peleja entre solteiros e casados do Recreativo. Oportunidade para a rapaziada pôr em prática todas as potencialidades no jogo do pontapé na bola. O esférico (?), coitadinho, deve ter ficado num frangalho! 
Sob arbitragem de Jerónimo Faria, as equipas alinharam assim:
Solteiros: José Neto, Bernardino Rego, Bernardino Moura, Maximino Rego, José Rego, Mendes, Jaime Moura, José Maria Moura, Jorge Vasconcelos, Carlos Correia e Idalino Pacheco.
Casados: Henrique, Agostinho Mendes, Vasco Dias, Neca Costa, Joaquim Costa, Ernesto Taipa, Correia, Silva, Albino Leão, Adolfo Pereira e Arnaldo Alves.
Os solteiros, mais "frescos", não tiveram contemplações e golearam os distintos opositores por 5-0. Uma cabazada.
Este e outros tipos de convívio tiveram continuidade durante anos a fio.


1948 - Em cima: João Taipa, Domingos Taipa, Rogério Monteiro, Maximino Rego, Adriano Antero, Agostinho Machado "Barroco" e Amâncio Torres
Em baixo: José Maria Taipa, Zé "Baião", João Dias, Henrique "Baião" e António Moura



Em cima: Costinha "da farmácia", Maximino Rego, Humberto Pereira, Fernando Moura, António José Brito, Celestino Moura, Nelson Lopes, Domingos Ribeiro Taipa, Leonço Leão, José Rego e Fernando Santos
Em baixo: Zé "Baião", Júlio Sousa "da tipografia", Carlos Felgueiras, Aloísio Simão, Augusto "Pilar" e Alberto Graça


Em cima: Adalberto Ribeiro, Luís Leão, António Brito, Manuel Barros, Fernando Valente, Nelo Nunes, João Dias, Miguel Oliveira, Costinha "da Farmácia".
Em baixo: Alfredo Cardoso de Barros, Toninho Nunes, Toninho Ribeiro, Jorge Mendes e Valdemar Batista



Convívio na Santa Águeda


Convívio na Srª do Amparo



Convívio na Srª do Amparo

Tendo em vista a oferta de outras actividades, sobretudo de âmbito cultural, no almoço comemorativo do dia de aniversário (16-10-1941), José Gomes Rego foi louvado em acta por ter proporcionado ao maestro António João de Brito, excelente audição de acordeão. António João de Brito que iria reger durante vários anos, com elevada mestria, a Banda de Música de Freamunde.

SEDE SOCIAL
A direcção da "casa",  sempre sujeita a diversos trabalhos de restauro, aproveitou a efeméride de 16-10-1941 para apresentar as obras efectuadas na Biblioteca e registar reconhecimento aos sócios António Sousa, que gentilmente ofereceu a madeira para as reparações, e Adelino Correia da Fonseca, que dedicadamente as executou. Formulado, ainda, voto de gratidão a Ernesto Gomes Taipa, credor sem documentos do mesmo Clube, e que não exigiu juros durante os anos em que teve capital emprestado. Outros tempos!... Outros tempos!...

1ª Sede Social no Alto da Feira

Estas e outras iniciativas, como por exemplo a modificação, em 1944, da escada de acesso ao Clube, enquadravam-se no crescimento sustentado que o Recreativo tinha verificado no decorrer dos anos.
Enfim, o espaço já não chegava para as "encomendas". Daí, em 2 de Novembro de 1946, foi convocada Sessão Extraordinária para esclarecimento sobre a compra de um terreno adquirido recentemente pelo Clube, no intuito de lá ser construída uma nova Sede Social, com a seguinte identificação: um pedaço de terra inculta com um palheiro, formado por dois socalcos, com ramadas, sito no lugar de Xistos ou Pôça, desta freguesia, a confrontar do nascente com a Escola primária (Amarelas), da Rua do Comércio); poente com Dr. Alberto Cruz; norte com estrada nacional; sul com Amélia Gomes Pereira.
O terreno (1/3 do respectivo prédio rústico), com o comprimento de 23 mts e largura de 11 mts, foi comprado, com aprovação da maioria dos associados, por 90$00 o m2.
Depois de apresentado o projecto, foi constituída uma comissão auxiliar para estudo da construção do edifício: Dr. Alberto Cruz, António Joaquim Gomes da Costa Torres, José da Silva Moura, Agostinho Mendes, Ernesto Taipa, António Ferreira Alves Pacheco, Idalino Ferreira Alves Pacheco e Domingos Gomes Taipa.
Contudo, mais tarde, a construção do referido prédio iria ser inviabilizada por ofício da Câmara Municipal, que obrigava ao recuo de dez metros a partir da Escola primária.
Foi de imediato proposta a venda do terreno, adquirido pelo preço de aquisição por António Pereira da Costa.
Assim sendo, e não havendo no imediato outro remédio, procedeu-se a obras na velha Sede que constaram de cobertura de soalho com madeira de forro; substituição da escada, por ser em caracol e se encontrar em mau estado; substituição do tecto da sala principal; modificação do bufete.
Para o efeito, foi necessário contrair-se um empréstimo e aumentar as quotas para 5$00. As despesas importaram em 34.126$80.
O Clube só conseguiu reunir a verba de 23.126$80. O défice de 11.000$00 foi coberto pelos empréstimos de Arnaldo Gomes Taipa (8.848$46) e António Pereira da Costa (3.151$54).
Os juros cobrados foram à razão de 6% ao ano, uma ninharia para a época.
Seguiu-se um período em que, neste e noutros aspectos, a actividade do Clube poucas alterações significativas sofreu, a avaliar pelas notícias impressas nos jornais regionais de então.
Em 1959, devido ao desencanto de alguns associados, voltou à "baila" a aquisição de terreno para construção de Sede Social própria, podendo, assim, estender-se a actividade cultural com a promoção de saraus, récitas, conferências, teatro, cinema, exposições, ginástica...

O piano, ainda existente

Uma sala de desenho industrial, necessária para o operariado freamundense, estava também na mente de sócios ousados.
A  discussão deu pano para mangas, dada a quantia necessária para a primeira fase (200.000$00) ser considerada exorbitante, mesmo considerando as ofertas que eventualmente poderiam surgir de freamundenses radicados no Brasil, nas colónias e países espalhados pelo mundo. Ricardo Espírito Santo, Estado e Fundação Calouste Gulbenkian eram Instituições a quem, igualmente, se poderia recorrer.
Primeiramente, a aprovação do projecto tornou-se um facto. Foi deliberado o aumento das quotas para 10$00 e decidido contrair empréstimo de 200.000$00, junto da banca, com prazos de pagamento e juros a negociar.
Mais uma vez, a ideia foi abortada, mesmo tendo em conta as condições da actual Sede, exígua em termos de espaço e bastante degradada, não possuindo o Clube condições financeiras para as devidas obras de restauro.
Em cima da mesa ficou a hipótese de se alugar nova casa.
A primeira alternativa era o antigo prédio da Legião, propriedade de José Maria Gomes Taipa, a troco de 600$00 de renda mensal.
A maioria dos sócios não aprovou a proposta da direcção, ficando tudo como dantes.
Tempos após, ventilaram-se as casas de Dr. Cândido Barros e de Fernando Rocha, e uma outra de raiz, a construir pelo Dr. Fernando de Vasconcelos, todas no lugar do Largo da Feira.
Nomeada uma comissão para estudar o assunto, projecto "roto", novamente.
A Sede, por muitos "remendos" que sofresse, não satisfazia às necessidades primárias: espaço, conforto, higiene...
Tudo se resolveu, mas só em 1968. No dia 19 de Março, o Clube passou a ter, por arrendamento, nova Sede Social, agora na Rua do Comércio (hoje a servir o Núcleo Sportinguista de Freamunde), em frente à drogaria Brito.


Clube Recreativo: prédio à esquerda, piso superior






Por poucos anos, diga-se. Logo ali ao lado, nas actuais instalações, encontraram edifício moderno, com outras comodidades, e para lá mudaram as "trouxas", dinamizando o Clube através da instalação de jogos salutares, mormente os de tabuleiro, xadrez e damas, e ainda o ping-pong. 


Actual sede social (piso superior)

PATRIMÓNIO
A rádio apareceu em Portugal no segundo quartel do século XX. As primeiras emissões, em onda média, realizaram-se em 1932, pela então Emissora Nacional, fundada oficialmente em 1935, definida à imagem de congéneres europeias e concebida num quadro político interno e externo em que as rádios desempenhavam, sobretudo, um papel de veículo dos interesses do governo.
Curiosamente, no dia 9 de Abril de 1930, foi ouvida uma sessão de rádio (emissoras estrangeiras) na casa de António Augusto Guedes, retirado em Setembro para o Caramulo, proporcionada a alguns sócios do Clube Recreativo.
Presume-se que o referido António Guedes (quem era?) possuía residência noutra terra, pois a luz eléctrica só seria inaugurada, em Freamunde, no dia 13 de Junho de 1931.
Porém, foi preciso esperar-se 14 anos para que a direcção do Clube fizesse a primeira aquisição de rádio telefonia (1941), muito pela valiosa cooperação de Agostinho Mendes e Bernardino Moura. Arnaldo Gomes Taipa ofereceu os oleados, as peças metálicas para suporte vieram da "casa" de José da Silva Moura e o poste para colocação do rádio apareceu por acção de António Joaquim Ribeiro "Armador".
Rádio, nesses tempos, que apenas servia para entretenimento da população.

Rádio "Graetz Stereo"

A tecnologia avançava. A constituição da RTP - Radiodifusão Portuguesa, SARL - é feita a 15 de Dezembro de 1955. Tratava-se, portanto, de uma sociedade anónima, com capital tripartido entre Estado, emissoras de radiodifusão privadas e particulares. As emissões experimentais iniciaram-se em 1956, a partir da Feira Popular de Lisboa. No entanto, as emissões regulares, só se iniciaram a partir de 7 de Março de 1957.
A "caixa" que mudou o mundo entusiasmava, satisfazia os telespectadores, era mesmo uma obsessão, e, meses após, pelo sócio Maximino Ferreira Rego foi sugerida a compra, ideia corroborada por todos e que se impunha, de um aparelho a instalar no salão principal, já enriquecido com uma valiosa colecção de livros gentilmente oferecidos pelo Coronel José Baptista Barreiros. Para os amantes da leitura, também os jornais "O Comércio do Porto", "A Bola" e as Revistas "Século Ilustrado" e "Ridículos" ficaram ao dispor.
Porque o Clube não dispunha de verba suficiente para a aquisição do televisor, foi aberta subscrição, voluntária, entre os sócios . A primeira sessão, com a casa, já dotada de um primoroso serviço de bar, a rebentar pelas costuras, foi visionada a 20 de Fevereiro de 1958.




A televisão a cores só foi realidade no Recreativo em 1977.
Não tardou, também, proposta para aquecimento do Clube a "Gascidla", sobretudo na sala de jogo.  

ANIVERSÁRIO
Os festejos comemorativos do aniversário da Associação eram, primeiramente, abrilhantados pela Banda de Música local, sempre presente nos grandes acontecimentos. Porém, em 1928, os seus préstimos foram dispensados, atendendo a razões de vária natureza. Talvez os cofres estivessem fracos, sem o "vil metal", gasto na organização de almoço e passeio a  expensas da própria Associação. Mais tarde, estas iniciativas seriam precedidas de romagem ao cemitério e de missa por alma dos associados entretanto falecidos - o primeiro a perecer foi Jacinto Torres (7-1-1931) .


Romagem ao cemitério

Por alturas de funestos acontecimentos, a bandeira descia a meia haste, a Sede era encerrada e lavrado voto de sentimento com cópia extraída da respectiva acta e posteriormente enviada às esposas ou familiares mais directos.
No programa das comemorações do 4º aniversário do Clube Recreativo, uma surpresa: a inauguração da Bandeira. No hastear da mesma, a Tuna (Orquestra do Clube), dirigida por Joaquim Augusto Pereira Gomes, executou o seu Hino, tendo sido recitados uns versos alusivos ao estandarte verde escuro pela menina Ludovina da Costa Machado. Versos escritos pela inspiração do Dr. João Neto e mais tarde publicados no jornal "O Comércio do Porto".


"BANDEIRA"




Bandeira símbolo de glória
Como não há outra igual
Para exemplo vê-de a história
Do Pendão de Portugal 


Uma Bandeira alimenta
Um ideal definido
E a nossa fé representa
Tudo quanto foi vencido

P'ra vencer e triunfar
Como vós dessa maneira
Tereis sempre de abraçar
A vossa linda Bandeira


Se a vida vos causa horror
Através de uma ilusão
Buscai alento na cor
Na cor do vosso Pendão

Haja alegria na vida
O trabalho tudo alcança!
Nunca mais será vencida
A "Bandeira" verde esperança.


O desânimo entre os associados não esmorecia. Bem pelo contrário. O dia de aniversário, comemorado, nos primeiros anos, na sede do Clube, era sempre preparado com pompa e circunstância.


1951 - Jantar comemorativo das bodas de prata








Em 1956 (16-10), por exemplo, no jantar de confraternização, participado por 60 sócios, num clima de verdadeira alegria e entusiasmo, o convívio foi abrilhantado pelo acordeonista alemão Hans-Gunther Plath, director artístico da organização Cantúlia em Portugal. Aos brindes usaram da palavra o Tenente-Coronel Alves de Sousa, Reverendo José Joaquim Moreira ( entretanto transferido da paróquia de Paços de Brandão para Castelo de Paiva), Teixeira Bonito (gerente da Confeitaria Cunha, do Porto), Dr. Alberto Cruz, Dr. Fernando Cruz e Fernando Santos (Edurisa, Filho). 


Os filhos de Teixeira Bonito presenteiam os associados do Recreativo com uma sessão musical de acordeão e concertina.






Porém, em 1958, no dia da data do aniversário, a tristeza invadiu o Clube, deixando de "rastos" todos os seus associados, ficando, de imediato, suspensas as celebrações. Uma hora antes do jantar de confraternização, António Joaquim Gomes da Costa Torres tinha sucumbido, de forma súbita, fulminante.
«... É que (conforme descreveu o correspondente da "Gazeta") o  Antoninho Torres, como era respeitosamente conhecido em Freamunde, passara um dia absolutamente normal; minutos antes tinha estado em amena e alegre cavaqueira com os amigos; nada fazia prever tal desenlace!
A bandeira do Clube, jubilosamente subida ao topo do mastro, baixou lenta à posição de luto. As suas portas fecharam-se e tudo mergulhou no silêncio impressionante que caracteriza os severos momentos.
A figura de António Joaquim da Costa Torres era das mais queridas e respeitadas nesta Terra. Homem íntegro, carácter sem mácula, a todos cativava com a sua irradiante simpatia.
No funeral incorporaram-se todas as Associações locais e pessoas do maior destaque na vida do concelho».
Completado meio século de existência do Recreativo, as celebrações das bodas de ouro (16-10-1976), já com o País em transformação face à "Revolução dos Cravos", não tiveram o impacto desejado. Por circunstâncias várias, não houve sessão solene, onde deveriam ter sido homenageados os sócios fundadores e outras personalidades ligadas directamente a este Clube ao qual muito deram, entre eles o Dr. Alberto Cruz e António da Costa Torres. Foi ainda deliberada a aquisição de um livro de honra, onde foi lançada a acta referente ao cinquentenário.


1976 - 50º Aniversário - Corte do bolo pelos sócios mais antigos, alguns deles fundadores


E PRONTO...
Das celebrações das Bodas de Ouro até aos dias de hoje, pouco mais do que rotina, apenas quebrada com a "festa" dos 75 anos de existência do Recreativo.

























Uma Associação que ainda respira mas sem os fins a que inicialmente se destinou.
A partir de agora tudo vai mudar, para melhor, estamos em crer. O edifício vai adaptar-se a novas realidades, sobretudo do ponto de vista cultural e da vivência.
A herança é pesada mas interessa a todos. Portanto, mãos à obra.
Pela forma como foi feito este percurso histórico, um reconhecimento, final, à iniciativa e tenacidade dessa plêiade de entusiastas, sobretudo os HOMENS que contamos entre os fundadores do CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE - sempre se tratou de um espaço masculino, de cavalheiros. Só nos convívios se "notavam" as "damas".






Por lá passou grande parte da vida económica, social e cultural freamundense dos últimos 90 anos. É muito tempo!
Seria uma tristeza se o Clube fechasse as portas.  


...Não fecha, não senhor!