quinta-feira, 1 de junho de 2017

"SANTANA"

Joaquim SANTANA da Silva Guimarães

(22 de Março 1936 - 24 Abril 1989)



Natural da cidade do Lobito, distrito de Benguela, Angola, foi, no entanto, no Sport Clube de Catumbela que Santana fez a sua formação.
O virtuosismo do futebol apresentado despertou a atenção dos responsáveis do Benfica, clube que o recebeu em 1954. Mas não chegou só. Acompanhou-o Daniel Chipenda, que vinha com o propósito de conciliar o futebol com os estudos. Chipenda estreou-se com o emblema da águia ao peito na vitória sobre o Atlético, na Tapadinha, por 5-0 (época 56/57). Dois dos golos foram da sua autoria. Anos mais tarde, já depois de ter servido a Académica, iria tornar-se, como militante anti-colonialista, guerrilheiro destacado nas lutas pela independência de Angola. 
A propósito, um episódio curioso, extraído das Publicações D. Quixote:
«...Daniel Chipenda, na cidade dos estudantes, andava já amanhado com o MPLA e teve uma surpresa: ao chegar de Amesterdão, após a épica vitória do Benfica perante o Real Madrid, por 5-3, no jogo da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus (1962), Santana foi visitar o colega a Coimbra. Fizeram festa na República dos Milionários. Quando regressaram ao quarto disseram-lhes que tinha havido telefonema. Pensaram que era complicação. Meteram-se imediatamente no carro de Santana e partiram para Lisboa. Lá, descobriram que tinha sido o irmão de Chipenda a dizer que chegara de Angola. 
Mesmo assim, Daniel decidiu que o melhor era já não voltar a Coimbra.
A caminho da Figueira, a PIDE mandou parar o Fiat de Santana. Ele que nunca levava nada a sério, gritou-lhes: "Vocês sabem quem eu sou? Sou bi-campeão europeu, portanto identifiquem-se!"
Ficaram várias horas a torrar dentro do carro, sob prisão.
Nesse período de tempo, outra Brigada havia largado para o Lar do Jogador. Entraram de rompante no quarto de Santana, vasculharam tudo mas não encontraram nada. No entanto, dispararam vários tiros para o colchão, esfarelando-o, explicando que poderia estar lá o que buscavam.
Assim sendo, Santana foi solto. Chipenda, não. Foi parar aos calabouços.
Só depois de manifestação de estudantes, exigindo a sua libertação, a PIDE cedeu. Quando saiu da cadeia, Chipenda pediu que o mandassem para a tropa em Angola, mas "nessa" eles não caíram».
Com apenas 18 anos de idade, Santana jogou as duas primeiras temporadas nos aspirantes e juniores  encarnados. Nesta última categoria foi campeão nacional, passando a integrar  o plantel principal a partir da época 56/57, sob orientação do carismático Otto Glória. 
Campanha de grande esplendor benfiquista. O clube da "Luz" sagrou-se campeão nacional, conquistou a Taça de Portugal e foi finalista vencido da Taça Latina, ante o Real Madrid.
De fraco porte atlético, franzininho (1,72 mts de altura e 68 kgs de peso - só o bigode, que sempre preservou, lhe dava um ar mais maduro), mesmo hábil e com tiques de craque, o "menino" Santana teve dificuldades de adaptação, sendo apenas utilizado uma vez pelo técnico brasileiro, no decorrer da 6ª jornada (21 de Outubro de 1956), ante o Caldas, opositor que saiu derrotado por 1-0.




Nas épocas seguintes o cenário não mudou muito para o "molengão de Catumbela", assim alcunhado pelos colegas de ofício.
A própria equipa perdera o fulgor de tempos áureos e seria ultrapassada pelos rivais Sporting e Porto.
Surpreendentemente, ou talvez não, viria a "explodir" na época 59/60, já sob o comando do "feiticeiro" Belá Guttman, ficando ligado aos maiores feitos internacionais do clube encarnado, sobretudo a mítica final de Berna, Suíça, no Estádio Wankdorf (23 de Maio de 1961), com a conquista da primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus. O distinto opositor, Barcelona, saiu derrotado por 3-2, na noite que catapultou Santana para o estrelato.


Coluna, José Águas e Santana com a Taça dos Clubes Campeões Europeus

Para a Selecção Nacional, que representou por cinco vezes. A 1ª internacionalização aconteceu no dia 8 de Maio de 1960, no Estádio Nacional. A fortíssima selecção da Jugoslávia foi suplantada por 2-1, com golos de Santana (não esperou muito tempo para fazer o gosto ao pé) e Matateu.
Com  a vinda de Eusébio, Santana perdeu o estatuto de titular indiscutível e a partir de 64/65 a sua influência na equipa quase que desapareceu. Por lá ficou, no entanto, até 67/68, realizando o último jogo com o emblema da águia ao peito em 24 de Março de 1968, na "Luz" contra a Sanjoanense.
Ao serviço do Benfica, como sénior, em provas  oficiais internas, Santana conquistou sete campeonatos nacionais e duas Taças de Portugal. Sagrou-se, igualmente, bi-campeão europeu. Um registo fantástico.
Propalava-se, em surdina, que apoiava movimentos de libertação angolanos. "Espiado" e incomodado pela PIDE, foi "despachado", mas continuou a vestir de "vermelho", agora ao serviço do Salgueiros.
Foi então que apareceu o Freamunde.
Depois do título distrital conquistado na época 69/70, sob o comando de Rola, a recém nomeada direcção do clube do "Carvalhal" sentiu que era tempo também de viragem no comando técnico, necessidade de incutir emoção ao projecto idealizado, tentando, completamente obcecada, cega, num golpe de audácia, a contratação para treinador/jogador de Joaquim Santana. Era uma forma de injectar doses de paixão e qualidade que muitos diziam faltar.
Não foi fácil esta aposta por alguma renitência inicial do técnico, apenas convencido no final de um jogo de carácter particular, Freamunde/Fafe, integrado na festa de homenagem a "Barbosa", que os "azuis" venceram por 5-3, após fantástica exibição do seu quarteto maravilha de dianteiros: Couto, Abel, Venâncio e Ernesto.
Fafe, curiosamente, agremiação desportiva presidida pelo freamundense, Eng. Hercílio Valente, antigo guarda-redes da equipa "azul e branca", e que também estava interessada nos préstimos de Santana.
Ciente de que o plantel lhe daria todas as garantias, Santana não olhou para trás e de imediato pôs o "preto no branco".
O Freamunde - já possuía alguma "hegemonia" mas pouco dinheiro - acabava por abrir os cordões à bolsa e fazer um dos maiores investimentos da sua história.
O contrato, "das arábias", implicava o dispêndio anual de 106.000$00 (um terço, aproximadamente, do orçamento global), assim distribuído: 
Prémio de assinatura: 40.000$00
Remuneração mensal: 5.500$00
Uma loucura para os tempos que corriam!
Anos atrás, em 1962, por exemplo, ao serviço do Benfica, as verbas envolvidas na renovação de contrato pouco diferiam: 50.000$00 de luvas e 4.000$00 de remuneração mensal mais os respectivos prémios. Só Coluna e Eusébio estavam noutra dimensão.
A notícia, contudo, ainda não tinha "saltado" para o exterior. Só os directores eram conhecedores.
Nas "tertúlias", sobretudo nas imediações do Café Popular, propriedade do Américo "Caixa", bem perto do "Cruzeiro", ninguém acreditava! - Contrataram o Santana?... O ex-jogador do Benfica, bi-campeão europeu e internacional pela nossa Selecção?...Não, não pode ser!... 
Mas foi. O encanto pelo "angolano" tornara-se irresistível e a ideia foi avante.


Acto de assinatura do contrato

Santana surgiu como o novo rosto do futebol em Freamunde, Vila que "abraçou" e onde encontrou de novo a felicidade. Onde viveu com a mulher, Manuela, e criou os filhos, Paula e Joaquim.
Santana trouxe padrões muito próprios de organização e treinos de alguma intensidade física. Mas logo se resignou. A rapaziada era totalmente amadora, só podia treinar duas vezes por semana e alguns métodos foram irreversivelmente alterados. Mesmo assim, os primeiros passos foram dados definitivamente para a frente.
A própria "revolução" no futebol local começou no dia em que Santana proibiu, fosse quem fosse, de "invadir" o balneário em dia de jogo, como até aí era apanágio de certos "dirigentes". De convicções fortes não dava ouvidos - ou dava? - aos treinadores de bancada. Intransigente, preservou e blindou o grupo contra os "índios" do costume. Mudavam-se as mentalidades.
Sem ambições desmedidas, o ambiente era contagiante. Nunca se vira nada igual. Alguns treinos pareciam jogos, tantos os "curiosos" em volta do pelado.
Santana pegava na batuta  e afinava a orquestra. Além de "maestro" também "executava" com carícia.
Quando o vi pôr o pé numa bola pela primeira vez fiquei boquiaberto. Fascinado.
Ainda me lembro de uma aposta que Santana combinou, antes de um treino, com os jogadores presentes, sobretudo com Miguel, guarda-redes: fazer dez remates com a bola no chão, em cima da linha de grande área, e conseguir acertar dez vezes na trave da baliza. Resultado: dez tentativas, dez bolas na trave.
Toda a gente ficou pasmada a interrogar-se como seria possível uma coisa daquelas. Pois!...
Santana representava o jogador completo: à mestria da técnica aliava a elegância no jogar.
Mas, raios!, não ria, não chorava, pouco falava. Parecia tímido... Talvez homem de sangue gelado mas o coração bombeava futebol.
O campeonato da 3ª divisão Nacional estava à porta.
O capricho do sorteio determinou que visitássemos Viana do Castelo, cidade de rara beleza e acolhedora.
O plantel, desfalcado de Ernesto, mobilizado para o ultramar (baixa de vulto), dava garantias.
Os freamundenses acreditavam. Tanto assim que das 3.000 pessoas que se acomodavam em volta do terreno de jogo, 2.000 eram de Freamunde. O tempo estava solarengo, convidativo ao passeio. As camionetas - cerca de 50! - foram pejadas de adeptos. Pela estrada viam-se dezenas de automóveis, todos eles sem espaço para quem quer que fosse, com bandeiras tremulando ao vento. A "princesa" vestiu-se de azul, mas de Freamunde.
Na nossa Vila só restavam velhos e crianças. No Quartel dos Bombeiros implorava-se: oxalá não toque a sirene para incêndio ou acidentes!
É que "voluntários"... nem vê-los! Estavam todos para Viana.
O Freamunde ganhou por 1-0. O "mister" Santana deu o exemplo, facturando o golo da justa vitória que levou ao rubro a imensa mole humana.


70/71 - Em cima: Miguel, Ribeiro, Alves, Júlio "Guerra", Domingos "Faria" e SANTANA
Em baixo: Daniel Barbosa, Martinho, Augusto, Venâncio e Jacinto

Dos 42 golos apontados pela equipa, 9 pertenceram a Santana. 
E por cá continuou.
No final da época 71/72, Santana foi alvo de uma singela homenagem.
Convidado o Sport Lisboa e Benfica - logo confirmaram a presença dada a consideração de que era credor o seu antigo jogador - o "espectáculo estava garantido". Nem mais.




Do livro "Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória", alguns fragmentos da "festa": «... Os lisboetas fizeram-se representar com um "misto" em virtude dos seus principais atletas se encontrarem no Brasil, ao serviço da selecção nacional, no Mundialito.
O "aparato" começou bem cedo. Afinal, sempre era o "grande" Benfica que nos dava o prazer da sua visita.
A delegação encarnada foi recebida à saída de Seroa por um cortejo de carros e outros veículos motorizados. Muitos foguetes troavam no ar. Seguiu-se paragem em Frazão onde o simpatizante encarnado, Manuel Coelho de Sousa, distribuiu uma rosca de pão-de-ló a cada um dos elementos da comitiva.
O "Carvalhal" rebentava pelas costuras.
O encontro aproximava-se do seu início e cá fora ainda se vendiam bilhetes. Simões, de braço ao peito, com blocos de ingresso na mão, "ajudava" o seu ex-companheiro de tantas tardes e noites de glória.
Com as equipas perfiladas, ouviu-se o "elogio" a Santana nas vozes do conceituado jornalista Álvaro Braga e do freamundense Fernando Santos, oradores incomparáveis, possuidores de uma fluência e de uma riqueza de imagem admiráveis.
O homenageado foi alvo de muitas manifestações de carinho e apreço. Da directoria benfiquista foi-lhe ofertada uma águia d'ouro.
Depois seguiu-se o tão ansiado jogo de futebol entre o Freamunde e o Benfica, arbitrado por Américo Borges.


Hermínio Pinto, representante dos benfiquistas de Freamunde, e prof. Alfredo Barros, presidente da Junta de Freguesia, entregam várias lembranças ao capitão encarnado, Malta da Silva


Equipa do Freamunde que defrontou o Benfica e respectivos dirigentes
Em cima: Miguel, Ribeiro, Fernando Viana, Jacinto (jogador do F.C. Porto), Fernando  Sousa Ribeiro, Abílio Ribeiro Gomes, António Silva Alves,  Rui Magalhães "Guitú", Abílio Freire
Em baixo: Rolando (jogador do F.C. Porto), Justino "Guerra", SANTANA, Couto, Ernesto, Jaime Gomes, Fernando Moreira e Yaúca (jogador do Lourosa. Yaúca também representou o Benfica e era conterrâneo de Santana pois nasceu em Catumbela.


Equipa do Benfica que defrontou o Freamunde
Em cima: Dirigente do Benfica (?), Malta da Silva, Barros, simpatizante do Benfica , Rui Rodrigues, Victor Martins e Zeca
Em baixo: Eurico, menino simpatizante do Benfica (?), Franque, Diamantino, Carlos Pereira, João Alves e Fonseca. 

Venceu o Benfica por 1-0, com golo de Carlos Pereira, mas o Freamunde deu réplica condigna valorizando o espectáculo.
... Mais tarde, já o capitão da equipa encarnada, Malta da Silva, havia recebido das mãos do Vice Presidente da Câmara, a taça "António da Silva Alves", num ambiente acalorado, foi servido, na "Quinta do Monte", um primoroso copo d'água. Marcaram presença os atletas das duas formações e respectivos dirigentes, várias personalidades da edilidade local e concelhia e outras individualidades.
Foi uma festa bonita, sem dúvida».


72/73 - Em Cima: Miguel, Ribeiro, Domingos "Faria", Albino, Justino "Guerra" e Alves
Em baixo: Martinho, SANTANA, Fernando Viana, Ernesto e Couto.

Em 73/74, Santana, pela quarta vez consecutiva, aceita de novo o cargo de timoneiro da "nau" azul, mas com contrato melhorado. A remuneração mensal passou a ser de 10.000$00.
No entanto, esteve "tremido" o acordo, pois, Santana, apenas desejava enveredar pela carreira de treinador. Tal desiderato não ia de encontro às pretensões dos dirigentes do Freamunde que o desejavam igualmente como jogador.


73/74 - Em Cima: Miguel, Júlio "Guerra", Luís Afonso, Domingos "Faria", Quim, João, Jacinto e Manuel "Frita"
Em baixo: Ribeiro, SANTANA, Justino "Guerra", Abel, Andrade, Pinto, Ernesto e Martinho.

Mas..., em 74/75, já a "revolução" havia chegado, também, ao futebol, Santana foi "pregar para outra freguesia", aliciado por um contrato extremamente vantajoso do ponto de vista financeiro. Pendurou definitivamente as chuteiras, passando a exercer apenas e só o cargo de timoneiro principal.
Sucedeu-lhe, no mandato de Agostinho Ferreira Leal, o vila-realense, Amaral, com as mesmas funções do seu antecessor: treinador/jogador.
Apenas por uma temporada. Santana regressava para a época 75/76. Estava de novo nas "suas quintas". Afinal, sempre era aqui que vivia... Gostava disto... Gostava do Clube... Nós gostávamos dele... E agradecemos-lhe por ter tomado essa decisão.


75/76 - Em cima: Manuel "Frita", José Maria Viana, Júlio "Guerra", Justino "Guerra", Luís Afonso, Alves, Jorge Regadas, Miguel e SANTANA (Treinador)
Em baixo: Martinho, Sacramento, Fernando Viana, Daniel Barbosa, Laurindo, Ernesto e Quim.

75/76 - SANTANA, na equipa de "Velhas Guardas" do Freamunde
Em cima: Fernando "Passareca", Zulmiro, Moreira, Albino "Loreira", Luís "Mirra", Joaquim Costa, Humberto, Henrique Costa e Alfredo "Careca".
Em baixo: António Andrade, SANTANA, Antonino, José Maria "do Talho", Alexandrino "Marrana", Vitorino e Arnaldo.


Mas o vil metal, sempre o vil metal!, voltou a falar mais alto e Santana deixou-se seduzir pelos encantos da "sereia" e rumou ao "mar" de Vila do Conde, a troco de muito, muito mais dinheiro. Para ser campeão pelo Rio Ave.
E por "fora" andou durante vários anos. Liderou, além dos vilacondenses, Régua, Leça, Paredes...
Até que, já na segunda volta do campeonato de 84/85, sob presidência de Francisco Ribeiro de Carvalho (Zeca, vítima dos fantasmas do passado, que tinham regressado e em força, viu-se despedido do comando técnico), Santana voltou a "pegar" na equipa, levando-a à discussão do título da 2ª Divisão Nacional, perdido no derradeiro encontro, em Paredes, jogo envolvido em enorme polémica. 


84/85 - Em cima: Armindo, Fangueiro, Jorge Regadas, Dé, Baptista e Guilherme
Em baixo: Américo, Cassanga, Pedro Taborda (filho de Guilherme), Lamas, Abel e Sacramento.

Tudo parecia um mar de rosas, mas não. Nova época, problemas antigos. Com Armando Teles Menezes de novo ao leme da directoria, acabou o estado de graça de Santana. As "coisas" não estavam a correr bem, ondas de conflito que não amainavam, e, a poucas jornadas do fim, rolaram cabeças. No comando técnico houve troca de Santanas: Joaquim deu lugar a Abílio, ex-treinador de Moreirense e Joane.
Um "emissário" trouxe-lhe a notícia do despedimento. Assim mesmo! Consideravam-no ultrapassado, improdutivo... A dignidade obrigou-o a prescindir dos "direitos" e desligou-se do clube. Foi, surpreendentemente, para o "rival" Lixa. Para ser campeão de série. É verdade! Afinal, onde estava a... improdutividade?
Curiosamente, o Freamunde, com o empate a uma bola alcançado no "Carvalhal", ante o Ermesinde, no derradeiro jogo, posicionou-se logo a seguir, também ascendendo a divisão superior.
Em suma: Joaquim Santana subiu duas equipas na mesma temporada. É obra!


85/86

Santana voltou ao Régua para, aí, terminar a carreira de treinador.
Santana, sempre de olho nos novos talentos que iam surgindo, lutou, também como orientador (até à sua primeira saída do clube azul e branco),  pela propaganda e melhoria técnica do futebol juvenil do Sport Clube de Freamunde, criando uma "escola" de fazer inveja. 


72/73 - Equipa de Juvenis do Freamunde sob orientação de SANTANA
Em Cima: Lobo, Abílio Viana, António "Fifa", João Costa, Jorge Regadas e Moura
Em baixo: Velhinha, Laurindo, Dias, Sacramento e Armando Lobo.

Santana, "raposa" astuta, remodelou a vinha e os "cachos" amadureceram rapidamente. Lançou precocemente às "feras", sem pestanejar, jovens com dezasseis e dezassete anos. Andrade, Sacramento, Jorge Regadas, Laurindo..., foram alguns a quem, tal como o pedreiro, limou-lhes arestas mas não conseguiu, a este ou àquele, limpar-lhes a cabeça.
Da sua vida privada, das suas aventuras extra-futebol poucos tiveram acesso. Talvez só Humberto e Ernesto. Santana gostava de privar com Humberto e de conversar com Ernesto sobre temas nada ingénuos, ainda antes do 25 de Abril de 1974.
Santana, aos  53 anos de idade, foi derrotado no jogo da vida. Uma luta desigual, durante três meses, à qual não pôde resistir.
Santana, já era um dos "nossos". Tinha assentada arraiais nesta terra em 1970, e por cá ficou a morar durante dezoito anos. 
A notícia, a frio, da sua morte, cruel mas nem por isso inesperada - sabíamos que estava gravemente adoentado -, deixou-nos, mesmo assim, chocados, sem palavras.
Os freamundenses despediram-se do amigo em silêncio. Em silêncio que falava por si e comovia.
O corpo, acompanhado por grande multidão a pé, até à saída da Vila, foi a sepultar no cemitério do S. L. e Benfica, em Lisboa. 



Fotos de "Cherina", publicadas no jornal "Fredemundus"

Santana saiu do nosso convívio, mas não da nossa lembrança, nem da recordação da sociedade freamundense que o saberá venerar. Sempre.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

PADRE CASTRO

PADRE CASTRO (ANTÓNIO ALVES PEREIRA DE CASTRO)

(5-12-1894/2-5-1949)


Padre Castro

Em meados de 2009, indicaram-me o Dr. José Pinto, entretanto falecido, morador, então, na Travessa do Padrão, em Sobrosa, que me revelou peripécias, muitas delas inseridas no livro por si editado, intitulado "Sobrosa - História e Património", sobre os ascendentes do Padre Castro.
« (...) Natural de Freamunde, Bernardino Pereira veio casar à casa da Boavista, Sobrosa, em 22 de Novembro de 1868, com Bernarda Alves Moreira, filha de Manuel Alves Moreira e de Maria Coelho Duarte, que, possivelmente, estariam na origem da construção da Casa da Boavista, em 1775, data que se encontra gravada no pedestal da cruz que ornamenta, juntamente com duas pirâmides laterais, a sua entrada principal.
Bernardino e Bernarda, já de meia-idade, por alturas do seu casamento - ele com 42 anos e ela com 41 -, não tiveram filhos, pelo que fizeram uma doação da Casa da Boavista a seu sobrinho, José Alves Moreira, mas, como usufrutuário, com certas reservas e condições: "Declararam os doadores que, se o doado fizesse casamento segundo aprovação deles, nesse caso, lhe cederiam no acto de tal casamento, o usufruto dos bens da Casa da Boavista e do Paço, que estavam sendo fabricados pelo caseiro, António Caetano..."
José Alves Moreira veio a casar, em 25 de Outubro de 1883, com Maria Francisca Gomes Pereira, natural da freguesia de Eiriz, Paços de Ferreira, que trouxe, como dote, três contos de réis que lhe foram dados por um tio que, ao tempo, vivia no Brasil.
Com a aprovação dos doadores, a Cada da Boavista passou a ser habitada pelo jovem casal, com o usufruto das suas pertenças, conforme o teor da doação.


Casa da Boavista, com séculos de existência, foi habitada pela família Alves Pereira até 16 de Março de 1972. A partir daí, passou para a posse do Dr. Acácio Alves Pereira, a residir com a sua família na Casa de Lourosa, em Mouriz, ficando a Casa a ser habitada pelos seus caseiros.

Como era habitual na época e dada a juventude do casal, ele com 25 anos e ela com 20, os filhos não se fizeram esperar, atingindo o número de dez».
Entre eles, o "nosso" António, quinto a vir ao mundo, depois de Joaquim, Fortunato, Felícia e Luzia, e antes de Mariana, Manuela, Cândida, Ana e Acácio.
António frequentou os primeiros estudos na Escola Primária de Sobrosa, sob orientação do professor oficial, Jacinto Ferreira Leal que marcou, pela sua competência, as crianças do seu tempo.
António Alves Pereira (de Castro) viria a ordenar-se sacerdote, tendo, primeiramente, desempenhado as funções de professor de matemática no Seminário dos Carvalhos, V.N. Gaia, onde leccionou durante alguns anos.
Seguiu-se a actividade pastoral, como coadjutor em Matosinhos, depois como pároco nas freguesias de S. Paio de Casais e Nespereira, do concelho de Lousada.
Este pastor espiritual, igualmente vocacionado para a indústria, foi, na "Fábrica Grande" (Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª), um dos grandes impulsionadores do ramo mobiliário. Os tempos, dificílimos, não empolgavam mas eram propícios aos bons investimentos. Estávamos em 1923, período de grande desenvolvimento industrial. Dos 27 sócios, pertencia-lhe a quota de 68.000$00, correspondente a 9,7% do capital social, elevado para 700.000$00.




Inicia então uma rápida e calculada marcha para o controlo total da empresa. Como? Por mérito próprio, escudado na sua indiscutível competência laboral, da visão sobre questões económicas, por um conjunto de condições favoráveis.
Não era a Fábrica que crescia em todas as vertentes sectoriais: mobiliário escolar e hospitalar, marcenaria, serralharia, moagem, latoaria, carvoaria, serração, vidraria, colchoaria, drogaria...





Perfil empreendedor, dinâmico e sagaz, fixou os seus operários (chegaram a ser mais de 300, entre homens e rapazes, vindos de todos os lados, com manifesta falta de formação profissional, gente maioritariamente analfabeta não qualificada, recém chegada do campo ou a ele ligado, que aproveitava o Domingo - sim, Domingo, porque ao Sábado também se trabalhava. A semana "à inglesa" ainda não tinha chegado -, para os "biscates", noite dentro muitas vezes, de tamanqueiro, pauseiro, jornaleiro..., o que calhasse) em redor da unidade industrial, construindo cantina com quartos onde alojava técnicos especializados, oriundos de outros concelhos (Porto, Vila Nova de Gaia, Felgueiras, sobretudo da freguesia da Longra...), refeitório e um clube desportivo, "Os Onze Vermelhos", que daria mais tarde origem ao Freamunde Sport Clube. Um "Alfredo da Silva" em ponto pequeno!


Os "Onze Vermelhos"

De média estatura, p'ró gordo, muito (então aquela barriga bojuda!), não valia a pena persistir em organizar prescrições alimentares. Não. O que era posto à sua frente ia tudo! Um verdadeiro triturador de comida - os nacos vermelhinhos de presunto eram a sua perdição! -, capaz de fazer um suculento capão parecer um vulgar pintainho. É de crer, mesmo, que comia de pé pois não teria cadeiras com assento adequado ao seu traseiro.
Fumador inveterado, quase sempre vestido de escuro à padre de antanho, era um homem fantástico, com uma energia inesgotável, viciado em trabalho e que fazia dessa vocação o seu estilo de vida. Falava sem esforço mas exprimia-se... "axim".
Mais adjectivos para o qualificar?! Inteligente, filantropo, raposão, de humor fácil e corrosivo, vaidoso - perfumava-se constantemente... Mas forreta quanto baste.
Referindo várias fontes (antigos empregados, que comeram o pão que o diabo amassou, alguns com mais de oitenta, noventa anos, tentando fintar a morte, são a nossa memória viva. Este ou aquele já pouco recorda, outros têm os pensamentos cansados, confusos, distantes mas nostálgicos... Também há os que não querem sequer ouvir falar desses tempos), o padre Castro, para evitar aumentos - de longe a longe lá vinha mais um "centavo" e viva o velho! -, "jogava" com hipotéticos despedimentos. Como a procura era superior à oferta devido à escassez de agentes empregadores no sector industrial, o remédio era aceitar, sem levantar cabelo, o ordenado que lhes davam (em 1938, 14$00 por dia, em média), números baixos, mas que mesmo assim aliciavam muitos operários que fizeram da "Fábrica Grande" o local de uma vida no "mundo" do trabalho, abdicando de tudo: liberdade, cultura e descanso.
Tempos em que proliferava a mão de obra infantil; os meninos, que representavam uma percentagem impressionante da força de trabalho industrial, logo que saíam da escola (os que haviam frequentado a escola), iam laborar para a Fábrica - fugiam, como "ratos", sempre que apareciam os "fiscais". Só era permitido trabalhar, 8 horas por dia, com 12 (!) anos feitos (D.L. nº 24402 de 24/8/1934).
Fosse como fosse, os "tostões" que caíam ajudavam, e muito, ao sustento de vários lares, onde imperava uma miséria franciscana. Era a verdade nua e crua.




Exigente, também. Era capaz de se misturar com o operariado, de contar anedotas, mas duro e frio nos juízos, firme e implacável na disciplina. Encarnava o chefe como figura autoritária. Indivíduo que não se deixava guiar demasiado pelas emoções. Diz, quem com ele privou e trabalhou, que nem ao melhor amigo perdoava entradas tardias, logo que o canudo chamava para a luta pelo pão. Minuto que fosse. Lá ia meio dia para o "galheiro"! Não havia tempo, sequer, para trincar a bucha. Flexibilidade era adjectivo que não fazia parte do seu dicionário
Mas foi assim - outras épocas! - que a indústria do mobiliário prosperou e o nome de Freamunde correu mundo, com proveito, desenvolvimento e nível social e económico.
A "ALBAR", assim também conhecida, com depósitos no Porto, Vila Real, Mirandela, Águeda, Leiria e Lisboa, mobilou as principais escolas e liceus do país e colónias, sendo premiada nas Exposições da Palácio de Cristal (1º prémio) e do Rio de Janeiro (Grande prémio).
Acérrimo defensor dos interesses freamundenses, o padre Castro foi suporte generoso de algumas instituições locais, em notória crise (a Banda de Música, por exemplo), a quem emprestava amiúde dinheiro, mesmo cobrando taxa de juro à razão de 8% ao ano. 
Influente em todos os sectores da vida pública, tinha o "mundo" nas mãos.
Não viveu muito tempo - morreu com 54 anos, na força da idade, por volta das 6 horas da manhã do dia 2 de Maio de 1949, na sua casa de Vilar, vítima de pneumonia -, mas... atravessou duas guerras mundiais.
Foi a sepultar no cemitério de Sobrosa, de onde era natural, constituindo o seu funeral uma enorme manifestação de pesar.





De grande reconhecimento público, homem de convicções graníticas e de uma personalidade que o levou a semear alguns inimigos mas também uma legião de admiradores, com uma vida assinalada por alguns episódios que o colocaram em posição nebulosa (ainda hoje o seu bom nome é motivo de alguma controvérsia), ficará, contudo, eternamente na nossa recordação, na nossa memória.
O Clube de Futebol, os Bombeiros Voluntários, o Museu do Móvel, uma avenida com o seu nome (Começa na Rua Prof. Albino de Matos e acaba na Rua Nova de Abrute), estão entre as marcas que o tempo jamais apagará.


Descerramento da placa, que deu nome a avenida, pelo sobrinho, Dr. Acácio. 




Histórias do Padre Castro
(Personalidade com sentido único de Humor)

O Padre Castro media
uns três metros e noventa
de barriga e já não via,
há anos, a ferramenta.

Um dia estava a "mijar"
e um rapazito atrevido,
pôs-se do lado a espreitar
aquele monstro esculpido.

Mas ele olho perspicaz
foi perguntar ao rapaz:
- Tu viste-me o "realejo"?!

- Vi. - Pega então dez "paus", pá
e diz-me como ele está
que há muito que não o vejo!


Rodela





sábado, 15 de abril de 2017

"ZECA MIRRA"

JOSÉ MONTEIRO DOS SANTOS "ZECA MIRRA"

(4-1-1926 / 15-4-2012)




Filho de Joaquim dos Santos e Emília Monteiro, família simples, gente que o ensinou a ser honesto, contraiu matrimónio com uma conterrânea, de sua graça Esmeraldina (Ribeiro de Meireles), corria o ano de 1948 (23/5). Do enlace, resultou o nascimento de quatro meninas, quatro Marias: Maria Cândida, Maria José, Maria Luísa e Maria Fernanda, criadas como pessoas de bem, honradas e persistentes.
Discreto, educado, contido, nada exuberante, também conservador de humildades, foi desta forma que eu conheci o senhor José ("Zeca Mirra" para gente das suas relações).
Após o desaparecimento físico, já lá vão cinco anos, é de inteira justiça e gratidão relembrar o desportista de eleição, um dos mais virtuosos futebolistas de sempre do clube do "Carvalhal", na posição de defesa central, e o treinador que lançou a sementeira na área da formação.
Despontou cedo para o futebol. O vírus, alastrado mais tarde aos manos Alberto, Jaime, Luís e Baltazar, foi-lhe incutido aos 16 anos, na faixa etária dos talentos precoces, competindo um ano depois, num período em que só existia a equipa de honra. Estávamos na época de 42/43.



 Fedra Santos



OS MIRRAS

Os Mirras, no futebol,
Da Terra que os viu nascer,
Foram a água, sal e sol
Do motor que os faz mover

O Zeca, o Luís e o Alberto
Mais o Jaime e o Baltazar
Deixavam sempre por perto
Quem os tentasse passar.

Rara era a fortaleza
Que batia tal defesa
Muito menos a de Paços.

Que enquanto os Mirras duraram
Nunca eles se gabaram
De lhes ter vergado os laços.

Rodela


A primeira vez que pisou um campo da bola com a camisola azul do então Freamunde Sport Clube vestida, foi em Lagoas, aqui bem perto, portanto. Curiosamente, usou umas botas de travessas saídas duns velhos sapatos domingueiros, verdadeira obra de arte, fruto da habilidade do carismático sapateiro, com pequeno aposento na Praça, António Ribeiro "Filipe". Botas que "poupou" até não lhe caberem nos pés.


1944/1945 - Em cima: Maximino "da Couta", Maximino "Frita", Alberto Matos, Belmiro "da Riqueta", Zeca "Mirra", Casimiro "Vaidoso"
Em baixo: Leonel, João Taipa, Américo, Adão Viana, Joaquim Pinto "Maneta"


1945/1946 - Em cima: Salvador "Pataco", Zeca "Mirra", Hercílio Valente, Belmiro "da Riqueta", João Taipa, José Maria "da Couta"
Em baixo: Leonel, António "Pataco", Alberto Matos, Adão Viana, Joaquim Pinto "Maneta".


1946/1947 - Em cima: Zeca "Mirra", Agostinho Machado "Barroco", Casimiro "Russo", Belmiro "da Riqueta", Quim "Bica", Hercílio Valente
Em baixo: João "Cherina", José Maria "da Couta", Adão Viana, João Taipa, Amaro "da Cavada".

"Zeca Mirra" rapidamente se tornou um líder dentro do campo. Jogador elegante, lúcido, inteligente e com lampejos de génio - verdadeiro símbolo do futebol arte -, durante várias temporadas honrou condignamente as cores do clube do coração. Do seu clube de sempre pois, vítima da relutância de alguns dirigentes de então, viu ser-lhe negada a porta do estrelato... Outros caminhos, muito mais vantajosos em todas as vertentes: promoção desportiva, trabalho bem remunerado, numa altura em que as dificuldades eram imensas e a ocasião era óptima para se afirmar no futebol e melhorar substancialmente a sua situação profissional. Sporting de Braga, Académico do Porto, Académico de Viseu, entre outros, foram fortes pretendentes ao concurso deste interessante jogador.
Sob o comando do saudoso professor Gil Aires, a equipa foi alcunhada de "Argentinos", tão bem jogava a rapaziada, mais fazendo lembrar a célebre formação de São Lorenzo de Almagro que encantou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou.
Quem não se lembra, quem ainda não ouvir falar do onze maravilha! Peixoto, Zeca "Mirra", Alberto "Mirra"; Manuel Pinto, Casimiro "Russo" e Zé Viana; Adão Viana, João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".


1950/1951 - "Os Argentinos" -  Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo", Zeca "Mirra", Zé Viana, Manuel Pinto
Em baixo: Adão "Viana", João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta"

Arrumadas as botas no final da época de 58/59, temporada histórica pois o S.C. Freamunde conquistou o título de campeão da 2ª Divisão Distrital, em 62/63 ainda apareceu a fazer uma perninha em alguns jogos, retirando-se, agora sim, em definitivo.


1958/1959 - TAÇA DE CAMPEÃO DISTRITAL DA 2ª DIVISÂO DA AF.P.

Passou anos a jogar futebol, sempre respeitando o jogo, os colegas e adversários, os árbitros: a personificação exemplar de um perfil discreto mas sóbrio.
Tempo ainda para acudir (67/68), como técnico principal, numa altura de alguma instabilidade, à equipa sénior do Freamunde. Não caiu nas boas graças de alguns adeptos(?). Era difícil derrubar certos "mitos" nebulosos que o envolviam, principalmente esse de não ser um treinador de... fora.
Apagadas as fogueiras da paixão que na altura se geraram, nem por isso se agastou ou proclamou aos quatro ventos injustiça ou intenção de lesar.
Mas foi na formação, na valorização de jovens atletas, como treinador, desde a longínqua época de 53/54, que Zeca Mirra se tornou lendário. Não custa nada, porque é verdade, lembrar sempre que a sementeira nesta área foi por ele lançada e cujos frutos ainda hoje se estão a comer. Mas não foi fácil impor padrões próprios de organização. Só se treinava uma vez por semana, às Quartas-feiras, depois do "mister" "arrear" da fábrica do Calvário, onde sempre trabalhou até à idade de reforma.
A partir de então, iria o Clube desenvolver, com assinalável sucesso, um laborioso trabalho na área da formação, mobilizando-a e criando uma certa disciplina desportiva.
Técnico de indiscutível competência, pelas suas mãos passou uma imensidão de atletas a quem sempre soube incutir as normas éticas e salutares, fundamentais à formação do jogador e do homem em toda a sua dimensão. Trabalho de "sapa", sem mediatismos.
«Ainda me lembro - reviveu, certo dia, em jeito de conversa - como surgiu o escalão de Juniores no S.C. Freamunde.
Nas redondezas já evoluíam alguns grupos similares. Tal facto fez-me matutar. Era o "bichinho" que já cá residia. Decidi, então, meter pés a caminho. O nosso clube precisava de formar atletas para mais tarde "alimentar" o onze das "Primeiras".
Depois de observar alguns jovens que me apareceram no "Carvalhal", outros que se defrontavam rijamente no tão propalado despique entre as duas facções oriundas das zonas norte e sul desta nossa freguesia - os tais jogos do "pé descalço" -, solicitei ao Toninho Torres a colaboração para a formação de uma equipa e posterior participação em campeonatos oficiais.


JOGOS DO "PÉ DESCALÇO"

Equipa do Norte: Em cima- Fernando "Passareca", Barbosa, Ivo, Augusto Cardoso, Claudino "Mirra", Aníbal Torres
Em baixo: Fernando "Barrigana", Maximino "Candeeiro", Zulmiro, Luís Mirra", Carlos Felgueiras


Equipa do Sul: Em cima - Jaime Rego, Rui "da Praça", Nuno Augusto, Rogério Pereira, Joaquim Lúcio, António M. "Baião"
Em baixo: Júlio, Carlos "Capas negras", Luís Moreira, Humberto, Paulino "Mineira"


O Toninho era possuidor daquela grandeza de alma, tão necessária para o êxito desta iniciativa.
Sempre ao lado da pequenada, com a ternura e dedicação que lhe eram peculiares, pelo seu contributo, pela sua constante disponibilidade, pelo amor, pelo carinho que eternamente nutriu pelos mais novos, foi, mais tarde, carinhosamente apelidado de "Padre Américo".
Feito o recrutamento, tornava-se imperioso a angariação de fundos para a aquisição dos indispensáveis equipamentos: camisolas, calções, meias, botas, bolas...
Tarefa prioritária mas difícil porque os tempos eram de contenção e os "carolas" contavam-se pelos dedos de uma só mão.
Reunimos a "miudagem" e partimos, animadíssimos como nunca, à procura da "massaroca" necessária.
Nas portas onde batemos fomos sempre bem recebidos... e muito encorajados para que o projecto não esmorecesse.
O apuro foi de 520$00. Para a lavagem dos equipamentos os "miúdos" teriam que pedir aos pais a verba mensal de 2$00.


Os ensinamentos de Zeca "Mirra"


Zeca "Mirra" com os primeiros candidatos à futura equipa de Juniores


A inscrição na AFP foi efectuada em devido tempo e a "malta" correspondeu, em absoluto, ao que dela se esperava.
Fomos campeões de série logo no ano de baptismo, levando à loucura os apaixonados da bola.
Era um "toledo" que nem queira saber!
A equipa "arrastava", sistematicamente, centenas de adeptos, mesmo em jogos fora do nosso reduto.
E quis o destino que o primeiro opositor fosse o vizinho e rival Vasco da Gama (hoje F.C. Paços de Ferreira).


1953/1954 - Em cima: Zeca "Mirra" (Treinador), Fernando Valente, Joaquim Andrade "da Raimonda", Jaime "Alegre", Carlos Felgueiras, Barbosa, Ivo, Joaquim Alves "Judas", Zulmiro
Em baixo: Armando, Luís "Mirra", Ribeiro "do Freixo", Humberto, Mário "de Lordelo".

Presenciado por enorme assistência, o jogo, disputado no campo da "Cavada", decorreu equilibrado durante a primeira vintena de minutos, justificando-se o empate a uma bola com que se atingiu o intervalo (os jogos tinham a duração de 60 minutos, divididos em duas partes de 30 minutos). Humberto tinha sido o autor do nosso golo.
Na segunda parte, o domínio do Freamunde foi avassalador, mercê principalmente da sua incontestável superioridade técnica, e o resultado final (2-1 a nosso favor) não surpreendeu.
Mas o jogo mais emocionante foi travado em Santo Tirso, com o grupo local.
O Freamunde não poderia perder, caso contrário seria arredado do primeiro posto.
O campo encontrava-se superlotado. O Maximino "Candeeiro", em grande risota, ainda agora conta este episódio perfeitamente insólito: "...Como não conseguíamos boleia de quem quer que fosse, eu e mais dois colegas fomos "ensanduichados" na mala do carro de praça do Albino "Aniceto". Pois!...Íamos lá agora perder o jogo! Era o que faltava!... E o mais engraçado é que tivemos de pagar parte do gasóleo".
Com uma fantástica exibição, conseguimos a igualdade a uma bola, resultado suficiente para a conquista do título de campeão de série.
No final, foi a "loucura" completa, dentro e fora do rectângulo.


Após o empate com o Tirsense, que garantiu à equipa o 1º lugar da série, Zeca "Mirra" é levado em ombros pelos seus pupilos


De longe, de Moçambique, Gil Aires, sempre Gil Aires, escrevia para a "Gazeta": «BRAVO! - Aos juniores do Sport Clube de Freamunde. Há pequenos nadas na nossa vida que são recordações, bâlsamos, imagens santas na nossa existência. Vós, talvez sem teres medido a extensão do bem que isso representa na nossa vida, conquistastes um desses pontos luminosos, que, anos mais tarde, vos encherá a alma, por momentos, vos dará novas forças para as lutas que ides travar como homens, ao recordá-lo. O vosso brio, as vossas forças, a vossa inspiração, aliados ao saber, que vos transmitiram, conquistaram um triunfo difícil, e mais difícil ainda por ser disputado entre vizinhos, que encheu de alegria o peito dos que vos seguem de perto e lá ao longe. Quantos destes, mesmo sem vos ter visto jogar, ao terem conhecimento do vosso feito, sentiram rolar uma lágrima quente, válvula invisível que, desoprimindo-nos, por influxo, nos traz bem estar celestial.
...Todo aquele que se entrega de alma e coração ao ideal por si sonhado, é um herói, é um eleito. Não sejais ingratos, esquecendo aqueles que vos guiaram nos passos, por vezes amargos, que cobrem as pugnas desportivas. A ingratidão não cabe no peito de um grande atleta».
Mas o grande feito ( o primeiro de muitos em escalões jovens) surgiu na época 64/65. A temporada anterior já prometera: a equipa tinha conseguido disputar uma das séries do Nacional, alcançando, no final, um honroso terceiro lugar, a um só ponto do vencedor, Vitória de Guimarães.



1963/1964 - Em Cima: Zeca "Pequito" (Massagista), Agostinho "Rita", Zeca Peixoto, Orlando "Loreira", Domingos Faria, Albino "Malapeiro", Jacinto, Cunha
Em baixo: Couto, Valentim "Cancela", Abel, Venâncio, Justino.


Uma equipa de PRINCPIANTES, surgida na época anterior, 1962/1963, mas que só "durou" duas temporadas.
EQUIPA DE 1963/1964: Em cima: Justino, Jaime "de Carvalhosa", José Maria Viana, Valente "do Cô", Manuel "Frita", Luís Afonso, Paulino "Cancela", Xico "Folhetas".
Em baixo: João, Alcino "do Cô", António Carneiro, Jorge "Sardinha", Ernesto, Júlio "Guerra".

A equipa possuía um enorme potencial. Na segunda fase, de apuramento de campeão, visitava-nos o todo poderoso F.C. Porto, até aí intocável. Mas a surpresa, e que surpresa!, aconteceu: os portistas sofreram no "Carvalhal" o único revés da temporada. Saíram derrotados por 1-0. Fernando "de Rebordosa" foi o autor do solitário e histórico golo que humilhou a grandeza de um clube recheado de vedetas (Almeida, Pavão, Piruta, Miranda, Ernesto, Lázaro...) e consagrou Agostinho "Rita", protagonista de uma exibição sensacional, defendendo tudo o que havia para defender. Incrédulos ficaram os "dragões", pálidos de amargura, inconsoláveis.
Do nosso lado, perante multidão delirante, abraços atrás de abraços. "David tinha vencido Golias".


1964/1965 - Equipa que venceu o F.C. Porto por 1-0
Em cima: Zeca "Mirra" (treinador), Zeca "Pequito" (massagista), Agostinho "Rita", Domingos "Faria", Henrique Costa, Jacinto, Jaime "de Carvalhosa", Zeca Peixoto, Cunha, Manuel "Pirata" (dirigente).
Em baixo: Justino "Guerra", Fernando "de Rebordosa", Quim, Xico, Abel

Mas o mais engraçado aconteceu minutos antes do início do jogo: talvez para "espicaçar" o grupo, a directoria, pela voz de Nelson Lopes, prometera uma arrozada de frango a todo o plantel, no "Popular" do Américo "Caixa", se a vitória caísse para o nosso lado. Quem pensaria em tal façanha?!.. O certo é que tiveram mesmo de abrir os cordões à bolsa e cumprir com a palavra. Nem mais.»


A Direcção prometeu e... cumpriu. Com todo o prazer.


Apetite, pelos vistos, não faltou

A partir daí, para Zeca "Mirra", foram mais dez anos ligado a esta causa. Sem desfalecimentos, com enorme paixão. A correr constantemente o campo todo, pela parte de fora, se o jogo corria mal. Nunca se sentava no "banco". E se assim fosse, porque os jogadores não obedeceram às suas recomendações, era vê-lo entrar nos balneários, ameaçando a terra e o mar. Depois, serenava e lá o tínhamos jovial, com uma palavra de conforto, uma atitude de compreensão que dava alento à rapaziada.
Até um dia em que...com muita mágoa, teve de partir. Vinte anos foi muito tempo, é verdade. Mas podiam ter sido mais. Houve, contudo, inadvertidamente, quem não quisesse. Modernices! Foi pena.
Modesto, passou a viver afastado da popularidade, praticamente ignorado - é assim a memória das pessoas, egoísta. Se a grandeza dos homens não fosse avaliada pela ostentação, prepotência ou arrogância, antes sim pelo carácter, honestidade e rectidão, talvez Zeca Mirra tivesse um lugar mais consentâneo nos anais do Clube.
Somente em finais da década de oitenta alguns dos seus "ex-meninos" proporcionaram-lhe momentos de convívio, de alegria, de nostalgia.
A "festinha", bem organizada, nada sofisticada, antes saída do coração, teve o condão de reunir à sua volta antigos atletas, muitos, os que puderam marcar presença, para um sentido abraço de amizade e gratidão.







José Monteiro dos Santos, o "nosso" Zeca Mirra foi, é, e continuará a ser, quer queiram ou não, uma referência inquestionável no que ao S.C. Freamunde diz respeito.
O tributo que lhe foi prestado pela direcção do S.C. Freamunde, no dia 19 de Março de 2010,  data comemorativa da fundação do Clube azul e branco, a pequena e singela homenagem (distinguido com o mérito desportivo), a justiça, por que não dizê-lo!, chegou um pouco tarde, correu alguns riscos, mas ainda a tempo.
A nós, freamundenses, os que amam o clube, que reconhecem os seus "heróis", que "viveram" intensa e apaixonadamente o "Carvalhal", só nos resta agradecer-lhe: OBRIGADO, SENHOR JOSÉ: