terça-feira, 23 de agosto de 2016

CORONEL BARREIROS

CORONEL BARREIROS
 
(10-8-1893 / 23-8-1965)
 
 


 
 
De nome próprio: José Baptista Barreiros.
Do enlace com D. Maria da Conceição Alves da Cruz (irmã, entre outros, de Dr. Alberto e Arnaldo Cruz), da Casa da Igreja, Freamunde, resultou o nascimento de duas filhas: Maria Elvira e Maria Cristina.
Muito novo, frequentou as Faculdades de Ciências (Matemática) e Direito, em Coimbra, e tirou o curso superior da Escola de Guerra (1916/1917).
De uma crónica assinada por A.M., de Braga - pessoa autorizada e com conhecimento de fontes capazes de melhor ficarmos a conhecer a personalidade do distinto Coronel, de talhe bem militar, metódica, calma, distinta, e arrumada na interpretação dos factos históricos a que por muito tempo ligou seu nome em ribalta de grande responsabilidade deixada por Rocha Martins -, e publicada no jornal regionalista "Gazeta de Paços de Ferreira", alguns respigos, como preito de admiração e gratidão a tão ilustre figura, que dispensou a Freamunde larga predilecção:
« (...) Os lugares que exerceu em Braga, onde fez uma grande parte da sua carreira militar, alguns por mero acidente, como os de presidente da Junta Distrital, pouco interessam para a compreensão da sua figura, que era estruturalmente a de um patriota, a de um republicano e a de liberal, embora, por vezes, circunstâncias fortuitas o houvessem aparentemente desviado do caminho de uma plena afirmação de princípios e atitudes.
Tinha, porém, um pronunciado sentido do dever e da capacidade de servir e assim, posto que afastado, por convicção, das actividades políticas directas desde 1926 (era então comandante da P.S.P. do distrito), nunca recusou a sua colaboração, mostrando maior ou menor entusiasmo, em benefício dos valores morais e culturais do povo e da Pátria através da defesa e da proclamação dos seus direitos tanto na sua própria conduta pessoal como nos seus trabalhos de pesquisador e de ressuscitador de velhos textos, em que bebia a força alentadora do seu testemunho de português consciente.
Após a sua passagem à reserva, em 1953, consagrou-se apaixonadamente com devoção e persistência, a uma fecunda tarefa de historiógrafo positivista, escrevendo magníficos ensaios e elucidativas crónicas sobre relevantes acontecimentos e vultos nacionais.
Possuía aptidões natas de investigador, um raciocínio claro, um sólido bom senso, uma lucidez penetrante no comentário, um critério esclarecido, uma segura prudência no avançar julgamentos e no extrair conclusões, uma prosa correntia de expositor, uma larga soma de conhecimentos especializados, um arreigado gosto pelas coisas singelas ou fabulosas do passado.
(...) Não deixou uma obra de envergadura, susceptível de traduzir o conjunto dos seus méritos e das suas possibilidades, decerto porque o não permitiram as limitações da sua existência. Em todo o caso coligiu subsídios e exumou documentos de real importância.
 
Premiado diversas vezes pelos seus trabalhos publicados na "Revista Militar", onde assiduamente colaborou, o coronel Barreiros, que também foi professor nos Altos Estudos Militares, era um técnico abalizado, com a excepcional competência de quem ocupa jubilosamente um lugar para cumprir uma missão em favor da grei: filho do povo, rendeu sempre a sua homenagem ao povo, com inalterável respeito.
Foi episódico o seu trânsito pela Santa Casa da Misericórdia - aí quis também por inteiro colocar-se ao lado do povo, mas acabou por renunciar ante um mundo de dificuldades e de inibições a que o seu temperamento e a sua educação de militar não se adaptavam de ânimo leve - e a sua presidência na Junta Distrital, quase desde logo assinalada pela doença, não lhe deu oportunidades, por tão curta, de empreender um novo programa de realizações.
Mas a sua acção de patriota, livre de compromissos, à frente da delegação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, cuja criação e desenvolvimento quase exclusivamente se lhe devem, conquistaram-lhe um prestígio tangível, sem benevolências nem convencionalismos, que se prolongou até final».
Foi de sua iniciativa a compra do Palácio dos Biscainhos para instalação do Museu de História, Arte e Etnografia, a promoção de Feiras, Exposições, Congressos, manifestações de carácter patriótico para comemorar datas nacionais.
Destaque para as condecorações de Comendador de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis e a Medalha de Mérito Militar.
A notícia do seu súbdito desaparecimento, calou fundo no sentimento de todos os habitantes da Vila de Freamunde, já escassa de valores.
Esta Terra, concelho incluído, mereceu-lhe sempre um carinho especial, sendo alvo de vários e aprofundados estudos.
Deve-se-lhe a monografia de Freamunde, de alto valor histórico.
 
 
 
Em edição da Associação de Socorros Mútuos Freamundense foi publicada, em 1957, uma comunicação da sua autoria, apresentada ao Colóquio Bracarense de Estudos Suévicos Bizantinos, sob o título "Uma povoação Suévica da Chã de Ferreira - A Vila de Freamunde".
 
"Portugal de ontem e de hoje na sua missão histórica", foi a legenda de uma notável conferência pronunciada em Junho de 1961, na sede daquela Associação de Socorros, a que presidiu o Chefe do Distrito, Brigadeiro Gonçalves da Silva. Este trabalho foi depois editado pela Câmara Municipal.
Em 1957, a direcção do Clube Recreativo propôs sócio benemérito da Colectividade, o coronel Baptista Barreiros, pela valiosa colecção de livros que gentilmente ofereceu (onde param?), para o enriquecimento da Biblioteca, decisão aprovada por unanimidade e aclamação.
É, pois, «altamente gostoso o sentimento que Freamunde, de lés-a-lés, devota ao saudoso coronel José Baptista Barreiros. Adventício da terra, teve por ela amor estranho e por ela queimou muitos dos poucos vagares em busca de elementos para a história de Freamunde».
Em 1983, por alturas das comemorações da elevação de Freamunde a Vila (Cinquentenário), o seu nome ficou eternizado em placa toponímica: Rua do Coronel Barreiros (da Rua D. Mercedes Barros à Rua Brigadeiro Alves de Sousa).
 
 
 
 
 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOM ANTÓNIO TAIPA
 
BODAS DE OURO SACERDOTAIS



 
 
...E tudo começou assim:
...Desde pequenino que falava que ia ser padre, contra a vontade do meu pai que tinha uma alfaiataria e precisava do auxílio do filho para que o negócio tivesse continuidade. Os estudos ficariam, pois, para trás. Escapadelas?!... Só para o "pontapé na bola", nem que chovesse! - recordou a irmã, Maria Ângela, ideia corroborada por Vitorino Ribeiro, amigo de infância de António Taipa.

António Maria Bessa Taipa; Maria Olívia Bessa Gomes (Mãe); Maria Ângela B. Taipa (Irmã); Daniel Oliveira Taipa (Pai)

 
Mas o "caminho" estava traçado: concluído o exame de admissão, passou a frequentar, entre 1954 e 1966, os seminários diocesanos de Ermesinde, Trancoso, Vilar e Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, onde cursou filosofia e teologia.
A ordenação sacerdotal, foi-lhe conferida no dia 15 de Agosto de 1966 na Sé Catedral do Porto por D. Florentino Andrade e Silva 
 
MISSA NOVA:
«Pelas 11,00 hrs do dia 21 de Agosto de 1966, com a Igreja Matriz de Freamunde repleta, começou a missa celebrada pelo neo-presbítero, acolitado pelo pároco local, José Augusto Sousa, e por dois condiscípulos e amigos, estando a parte coral a cargo de um grupo de seminaristas e de jovens freamundenses. A homilia foi da responsabilidade do Rev. Alves Dias que enalteceu as grandezas do sacerdócio, e às lavandas serviram o pai do novo sacerdote, Daniel de Oliveira Taipa, e seu avô materno, Joaquim de Bessa Ribeiro.



 
Terminada a cerimónia do beija-mão, organizou-se um cortejo, abrilhantado pela Banda de Música local, em direcção à propriedade de D. Glória Vieira e irmãs, onde foi servido o almoço a cerca de duas centenas de pessoas.





 
Na altura própria, brindaram pela felicidade do novo sacerdote, o Rev. Alves Dias, o pároco local, um seu antigo condiscípulo, o Rev. Domingos Moreira, José Maria Pinto de Almeida e o Dr. João Neto.
Lidos diversos telegramas de felicitações, encerrou a série de brindes o Rev. António Maria de Bessa Taipa que, emocionado e reconhecido, agradeceu todas as provas de amizade e estímulo».
Rev. António Taipa ladeado pelos pais

Rev. António Taipa ladeado pelas irmãs Maria Ângela e Gracinda
 
Já ordenado presbítero, entra no Seminário do Paraíso, na Foz, como prefeito e professor.
No ano seguinte vai estudar para a Universidade Gregoriana, na cidade de Roma, Itália, onde faz a licenciatura em Teologia Dogmática e no Pontifício Instituto Bíblico a licenciatura em Sagrada Família.
Já com o ilustre e carismático Bispo D. António Ferreira Gomes no "governo" da Diocese do Porto, é nomeado, em Outubro de 1972, prefeito e professor de Sagrada Escritura e Teologia Dogmática do Seminário Maior, mais tarde Instituto de Ciências Humanas e Teológicas (ICHT).
A partir de 1987 torna-se docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

ORDENAÇÃO EPISCOPAL:






Na tarde do dia 18 de Abril de 1999, os sinos da Sé Catedral repicaram em anúncio da ordenação episcopal do Bispo auxiliar do Porto, D. António Maria Bessa Taipa, tendo sido Bispos ordenantes D. Armindo Lopes Coelho, D. Júlio Tavares Rebimbas e D. João Miranda Teixeira (Significativa a presença das Igrejas Irmãs Lusitana, Anglicana, Metodista e Luterana alemã, em sinal da unidade de Missão que cada vez mais se assume e, em momentos mais significativos, também se exprime). Ordenação que juntou, também, dezenas de sacerdotes, bispos, seminaristas,  autoridades civis, familiares e muitos freamundenses. A sentida ambição materializava-se em realidade.


Nomeado pelo Papa João Paulo II, a 22 de Fevereiro, o "dilecto filho" do clero portuense recebeu a difícil tarefa da pregação do Evangelho, de impedir a degradação da religiosidade, levando a palavra de Deus até aqueles que experimentam o "pesadelo do sonambolismo".
O homem de gostos simples, filho de Freamunde, terra que o viu nascer a 11 de Novembro de 1942, aceitou, de joelhos, a antiga missão dos apóstolos que lhe confiaram, enunciando a sua felicidade:
«... Sinto, de um lado, o sentimento da fraqueza, da limitação, da incapacidade radical diante da missão que me é confiada; do outro lado, a certeza da fé que é o Senhor que me chama e de que nada me faltará. Por isso, lhe agradeço por ter querido servir-se de mim para o seu instrumento na sua obra de salvação dos homens. Feito bispo para o meu povo, sinto e vivo esta consciência: que me devo também à comunidade onde nasci e cresci, à comunidade onde Deus me encontrou. E penso na minha família. Uma família grande, simples e pobre, mas rica de uma felicidade que só o Senhor conhece» - Excertos do "Jornal de Noticias" que noticiou, assim, o acontecimento, enchendo as páginas interiores na edição do dia seguinte. Mas não só.

"Voz Portucalense":
«..."Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho" - foi a proclamação mais forte na celebração episcopal de D. António Maria, bispo auxiliar do Porto, na Sé.
Apresentado por dois presbíteros, os padres Jorge Cunha e Manuel Mota, do Seminário Maior, D. António Maria fez a sua confissão de Fé e promessa de obediência pastoral, prostrando-se depois por terra enquanto se cantavam as ladainhas dos Santos. Realizou-se depois a imposição das mãos, oração de Ordenação, unção com o Santo Crisma e a entrega do Evangeliário. Foi-lhe entregue depois o anel, a mitra e o báculo, sinais da Missão em que é investido.
O canto do Coro, com Orgãos e Metais, e o profundo significado desta acção litúrgica penetraram de tal modo as pessoas que se criou um ambiente marcante e cheio de interioridade».


 "Comércio do Porto":
«... Não esquecendo a comunidade onde nasceu e cresceu, a família, os párocos e catequistas que o introduziram nos ministérios da Fé ou a "Igreja do Porto", D. António Taipa teve uma palavra especial para D. António Ferreira Gomes, que o admitiu ao seminário, D. Floriano, que o ordenou presbítero, e D. Júlio Tavares Rebimbas, com quem trabalhou seguidamente.
Mas a menção especial foi, sem dúvida, para o seminário e os seminaristas, "alavanca na minha esperança e na minha fé nesta nossa querida Igreja"».

"Gazeta de Paços de Ferreira":
«... O templo (Sé Catedral do Porto) tornou-se pequeno para acolher centenas de amigos de D. António, principalmente da vila de Freamunde, estando a Câmara Municipal representada pelo seu presidente, Prof. Arménio Pereira».

"Imediato":
«...Foi de emoção a cerimónia de ordenação de D. António, em especial para todos aqueles que de Freamunde, e não só, se deslocaram à Sé do Porto.
Em carta de nomeação, em 22 de Fevereiro, João Paulo II termina dizendo: "Nesta hora, recomendamos-te, dilecto filho, que confies todo o teu empenhamento a Cristo que inaugurou o reino dos céus na terra e nos revelou os mistérios divinos"».

"Tribuna Pacense":
«... A Diocese do Porto acaba de ser enriquecida, com a nomeação do novo bispo auxiliar - D. António Maria Taipa.
Motivo de rejúbilo para as nossas gentes, o facto de ser oriundo (Freamunde) destas Terras de Ferreira».

"TVS - Terras do Vale do Sousa":
«... É de Freamunde o novo Bispo Auxiliar do Porto. A alegria de uma freguesia que nunca teve um bispo foi materializada».




"FREAMUNDE RECEBEU O SEU BISPO EM CLIMA DE FESTA "

No dia 24 de Abril de 1999, Sábado, Freamunde "viveu um dia de alegria e orgulho incontido".
"Ele é nosso! É de Freamunde". Era o sentimento generalizado na população que viu nascer e crescer o seu "menino querido" António Maria Bessa Taipa.
Antes do jantar/festa, organizado por uma comissão liderada pelo pároco local, Rev. Arnaldo Meireles, aconteceu o momento de maior simbolismo: o cónego António Taipa, já como Bispo Auxiliar do Porto, celebrou uma eucaristia, no "Pavilhão das Sebastianas", repleto de fiéis, cerimónia abrilhantada por um grupo coral dirigido pelo diácono Pedro.
No termo da eucaristia representantes da Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Colectividades desportivas e recreativas da terra, ofertaram a D. António várias lembranças.
A homenagem terminou com um jantar/convívio, no salão da "Carfel", espaço gentilmente cedido pelo seu sócio-gerente, Carlos Felgueiras, onde marcaram presença cerca de 400 pessoas. O reconhecimento público da paróquia e do orgulho dos freamundenses pelo filho da terra, simples, sabedor, piedoso e prudente, a quem foi entregue um báculo, bordão utilizado nas cerimónias litúrgicas como sinal da jurisdição dos bispos.
Foi uma "Festa" de emoção. Como emotivos e comoventes foram os agradecimentos de D. António nas palavras finais.



"JUBILEU SACERDOTAL"

Dom António celebra hoje, 15 de Agosto de 2016, o Jubileu de 50 anos de ordenação presbiterial.
A efeméride é assinalada com a celebração da Eucaristia, às 18,00 horas, na Igreja Matriz de Freamunde, que contará com a presença de entidades eclesiásticas, civis e militares, amigos e fiéis.
A celebração Eucarística é organizada pelo "Deo Gracias Coro Litúrgico", elementos de outros coros existentes na paróquia de Freamunde e a colaboração da Associação Musical de Freamunde.

PARABÉNS, D. ANTÓNIO
PARABÉNS, FREAMUNDE











 
 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO NASCEU HÁ 150 ANOS

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO
(9-8-1866 / 24-2-1951)



Natural de Santo André de Cristelos-Lousada, filho de Gaspar António de Brito, mestre pedreiro, oriundo de Aboim, aldeiazinha pertencente ao concelho de Arcos de Valdevez, e Ana Joaquina de Bessa, costureira, da referida freguesia de Santo André de Cristelos, "cresceu" profissionalmente no seio de uma família de comerciantes de Penafiel, gente que o ensinou a ser honesto, e, contagiado e incentivado pelo "patrão", comerciante se tornou.
Adolescente cheio de esperança (os ventos pareciam-lhe de feição), subiu São João de Covas e deparou-se-lhe uma terra interessante. Em Freamunde não procurou emprego: estabeleceu-se. A "Casa" António José de Brito, sediada na rua que viria a chamar-se "do Comércio", voltada para a venda de qualquer tipo de ferragens e materiais para o ramo da construção civil, abriu as suas portas à freguesia no dia 11 de Março de 1888.




Dinâmico, seguro, de ar maduro e confiante, iria tornar-se num bem sucedido homem de negócios. Mas não só. De visão prática, pugnava pelo progresso da terra que o havia adoptado. Depositário da caixa do correio, incumbiu-se gratuitamente nas diligências e esclarecimentos necessários à instalação de uma estação postal em Freamunde.
Católico praticante, foi, em Outubro de 1896, nomeado tesoureiro da Confraria de Nossa Senhora das Neves, sendo principal responsável pela reforma de pintura e douramento do altar da dita Confraria.
Cedo se embeiçou por uma menina prendada, de sua graça Henriqueta (Moreira Dias Cardoso da Costa), filha de António da Costa Gomes e Joaquina Moreira Dias Cardoso. Do namoro ao matrimónio (13-10-1889) foi um passo. Os filhos, em número de dez, não se fizeram esperar: Arnaldo, Vitorino, Alexandrino, Alzira, Ernesto, Jaime, Alberto, António, Ernestina e Cassilda.


Henriqueta M. D. C. Costa e António José de Brito

O agregado desfrutava do conforto da classe média, auferindo rendimento sólido. Era feliz.
A par da sua actividade comercial, António José de Brito cedo foi atraído pelo poder autárquico, mas não a qualquer preço. Já em 1895 se havia envolvido nestes meandros, tendo sido eleito membro efectivo da Comissão de Recenseamento Eleitoral.
"Militante" político com um claro compromisso com as forças mais conservadoras, tornou-se, em 1897, importante e influente líder dos Regeneradores de Freamunde.
De 1902 a 1907, aí o tínhamos como vereador municipal, na presidência do Dr. Luís Alves Pinheiro Torres, ao lado do Padre António Ferreira de Carvalho (Ferreira) e Júlio Alves Carneiro (Seroa).


António José de Brito: 3º da 2ª fila a contar de baixo da direita para a esquerda


Combatente, desde a primeira hora, contra a macrocefalia da sede do concelho, tudo fez para libertar a terra das amarras da subalternidade autárquica.
Mas... com o poder centralizado (Paços de Ferreira) e hostil às necessidades prementes da "sua" terra (Por exemplo, foi a gente bairrista de Freamunde que, por um espaço de três anos, com início em 1907, através de donativos oferecidos à Junta, proporcionou a colocação e sustentação de 24 candeeiros a gás de acetileno nas ruas mais centrais, melhoramento que se tornou importantíssimo), sentindo perdida mais uma batalha, mesmo aceitando o compromisso de, para ali destacado, garantir o escrupuloso cumprimento da vontade da "maioria" da edilidade, decepcionado com as suas ambições, aproveitou o decreto-lei do ministro João Franco, que dissolvia todas as vereações, substituindo os seus membros (Não precisou, pois, de renunciar, em 1908, à Comissão Administrativa Municipal), integrando, como vogal, a Comissão Administrativa da Junta da Paróquia de Freamunde até 1910.
É que, a obra política, exígua que fosse, por ele orientada ou influenciada nesta terra, tinha sido antes produto do sentimento e da vontade de freamundense bairrista, como António José de Brito era, que resultado de um esforço consciente dos colegas do executivo.
Desiludido, inerte e conformado, isolou-se da actividade política após a revolução do 5 de Outubro de 1910, que proclamou a República e fez cair a Monarquia. Ainda integrou a facção das primeiras figuras da oposição ao novo regime, fruto da sua consciência política, sendo um dos nomes apontados como suspeito de ter participado na rebelião de 19 de Setembro de 1911. A alma ficou ferida. Deve ter doído.
Não podemos, contudo, agora que o percebemos melhor depois de algum trabalho de recolha documental, acusá-lo de falta de honestidade, de cobardia ou ausência de valores. Valores que se elevavam em todos os seus comportamentos sempre que Freamunde estava em causa. Havia notória solidariedade entre os honrados e bairristas cidadãos desta terra, assíduos nos mais importantes acontecimentos dessa época.
Questiúnculas partidárias à parte, não se estranhe, pois, encontrá-lo como Juiz das Festas em Honra ao Mártir S. Sebastião no ano de 1911 (em 1909 já havia sido vogal da comissão promotora das mesmas festividades) e membro efectivo, em todos os cargos, até na comissão revisora dos Estatutos da benemérita Associação de Socorros Mútuos (foi seu sócio fundador), desde 1890 até à data da sua morte (1951). Por justiça, foi a sua fotografia colocada e descerrada na galeria daquela Instituição, na habitual sessão solene do 19 de Março, corria o ano de 1928, pelo Dr. Alberto Cruz.
Desaparecido da ribalta política, já tinha, no entanto, provado o seu "ópio" e por mais que tentasse nunca mais se livraria dele.
Bastou o golpe do 28 de Maio de 1926, que instalou um regime mais de acordo com o seu pendor político, para o termos de novo, de 1927 a 1938, no seio de cinco vereações, presididas pelo Dr. José de Lencastre.


1927 - C.A. da Câmara Municipal: António José de Brito; Manuel dos Santos Carneiro Leão; Dr. José de Lencastre e Joaquim Monteiro Filho
De permeio, fruto do seu altruísmo, membro destacado, em 1928, da Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde e Vice Presidente da referida Associação Humanitária nos anos de 1930 e 1931.
Por uns tempos reintegrou-se na luta pelo progresso e bem estar dos freamundenses. Com o apoio incondicional, e enorme dedicação, dos elementos da Junta de Freguesia (Abílio Pacheco de Barros, Arnaldo da Costa Brito e Armando Nunes de Oliveira), a importância política, junto das altas esferas governamentais, do Dr. Alberto Cruz e, sobretudo, do Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa, Administrador do Concelho, Freamunde conhece um maior desenvolvimento com as inaugurações de duas escolas primárias (1931 e 1938), uma cabine telefónica, fontanários, lavadouros, coreto, abertura e reparação de arruamentos... Em 1933, Freamunde é elevada à categoria de Vila, acontecimento histórico e que fez transbordar de alegria os orgulhosos freamundenses.
Depois, regressou o ostracismo. A terra voltou a parar de uma forma confrangedora. Em 20 de Outubro de 1938, António José de Brito, personalidade acima de qualquer suspeita, sendo mesmo tido como incorruptível, sequer subserviente, eventualmente marginalizado e sem poder decisório, pede licença e é substituído na vereação por António Afonso da Silva.
António José de Brito chegava ao fim de vários mandatos sem a imagem desgastada.


Anos 50: "Casa Brito", à direita".
 
Faleceu, serenamente, no dia 24 de Fevereiro de 1951, com 84 anos de idade, um dos "Homens" de grande influência para Freamunde durante meio século.
O seu nome ficou perpetuado em placa toponímica, numa merecida e justa decisão da comissão executiva das comemorações do cinquentenário da Vila de Freamunde: Largo António José de Brito (no Alto da Feira, desde a Rua Abílio Barros à rampa para a Associação de Socorros Mútuos). 


Lápide descerrada pelo filho, Arnaldo Brito





quinta-feira, 4 de agosto de 2016

"ZÉZINHO DA CASIMIRA"

JOSÉ PINTO PEREIRA GOMES "ZÉZINHO DA CASIMIRA"

(4-8-1870/16-9-1942)



Filho de Joaquim Pereira Gomes e de Joaquina Pinto, casou, no dia 1 de Novembro de 1896, às 6 horas da manhã, na Igreja Matriz de Freamunde, com Carolina da Costa e Sousa, sendo celebrante o Pároco Maximino Ferreira Alves.
Testemunharam, Manuel Augusto Pinto de Barros, farmacêutico, do lugar da Feira, e António Ferreira Alves, estudante, do lugar de Freamunde de Cima.


Carolina da Costa e Sousa e José Pinto Pereira Gomes "Zézinho da Casimira"

O casal ocupou, primeiramente, uma casa emprestada por Bernardo Ferreira, em S. Sebastião, e por esses lados ficou.
Do matrimónio resultou o nascimento de 7 filhos: Helena, Zulmira, Joaquim, Julieta, José da Conceição, Augusto e Horácio, todos presentemente falecidos.


Augusto (filho); Julieta (filha); Carolina (mulher); " ZÉZINHO DA CASIMIRA"; Hermínio (neto); Horácio (filho)

Freamundense autêntico, possuído de paixão, espalhou tantos pormenores sobre a sua vida que, hoje, é perfeitamente possível estabelecer uma pequena biografia.
Terna e carinhosamente conhecido por "Zézinho da Casimira" - sua avó, onde foi criado, chamava-se Casimira -, era um homem de ideias, de carácter jovial, simplório e humilde, leal para os seus amigos e generoso para aqueles que encontrava com problemas. Uma alma nobre.
Para além de proprietário, sem ser capitalista, à actividade de comerciante alia novas e sucessivas ocupações, sem nunca dar sinais de dissabores e cansaço. Chegou mesmo a ser ajudante escriturário dos tabeliões Alexandrino Chaves Velho e Dr. Costa Eiras.


Fotografia tirada no início do século XX. Fila de baixo: ZÉZINHO DA CASIMIRA, o 2º a contar da esquerda

Ganha o gosto de ler e devora todo o livro que lhe cai nas mãos. Não era dos que fugia dos compêndios como o diabo da cruz. Pelo contrário. As suas estantes passaram a intercalar autores clássicos com outros mais contemporâneos. Quando os "reais" lhe sobravam, comprava livros.
Foi a leitura quem o pôs pouco a pouco em contacto com o teatro, primeiro, e com o ensino particular, depois. A muitos rapazinhos que o procuravam, numa altura em que o analfabetismo grassava, ensinou as primeiras letras, abnegada e desinteressadamente, no palheiro de cereais do caseiro, ou, quando o tempo o permitia, na eira, no então lugar da Lage, ali pr'ós lados de S. Sebastião, quem vai para Freamunde de Cima.
Foi assim que preparou para exames de instrução primária do 1º grau, em meados dos anos vinte, dezenas de instruendos - o que o transformava numa autêntica instituição de utilidade pública -, conforme me elucidou Alfredo de Matos "Cherina", seu ex-aluno, colega de João "Catano", Zeca Pedra, Alberto Pinto... Já antes, ainda no período monárquico, tinham passado pelas suas mãos muitos jovens, alguns referenciados: Albino R. C. Machado, Ilídio Correia da Fonseca, Joaquim de Sousa Mendes, João Pereira, Felisbina da Costa Seixal (sua afilhada, por sinal)... É verdade, uma menina, numa época em que pouquíssimas crianças do sexo feminino frequentavam o ensino.
Estreou-se como ensaiador da arte de Talma, em 1908, à frente da "Troupe Artística Dramática Freamundense", levando à cena alguns Autos, de cariz essencialmente popular.
Volta à actividade teatral, em 1914, oferendo ao público interessado hilariantes comédias. Pôs, assim, à prova todos os seus recursos criativos, imaginativos e com uma entrega total.
Homem simples, do povo, foi com simplicidade que realizou o seu trabalho, sentido, apaixonado, com sinceridade e respeito.
Mas, além dos atributos de homem culto, Zézinho era, sobretudo, um cidadão exemplar, uma personalidade íntegra.
Com ele muitos aprenderam a sabedoria das coisas simples e naturais.
Tornou-se rapidamente uma figura de interesse local pela imagem que criou na comunidade.




Nas festas que se faziam nessas épocas, na freguesia de Freamunde, em honra ao Mártir S. Sebastião, Menino de Deus, Sagrado Coração de Jesus, Senhora da Hora, S. Tiago, S. José, Santo António, Divino Salvador, Senhora da Conceição, Santa Luzia..., o seu contributo era indispensável.
Extremamente habilidoso - nos tempos livres, trabalhava, com uma pequena serra manual, a madeira como ninguém, conseguindo pequenos brinquedos em miniatura, de várias formas e feitios (roletas, rapas, piões, carrinhos...), que amavelmente oferecia às crianças mais carentes pela quadra natalícia -, eram dele as cascatas, dum gosto desusado, que se faziam, quase sempre, junto à casa das "Elvirinhas". Zézinho era um cascateiro emérito. Um pequeno génio inventivo. Das suas mãos surgiam maravilhas em forma de figuras.
Bairrista de gema, serviu com denodo várias colectividades e instituições locais. Em 30 de Novembro de 1890, foi um dos elementos que compôs o grupo de cidadãos que convidaram a freguesia para a reunião efectuada na moradia de Albino Augusto da Costa Torres, em S. Francisco, tendo em vista a criação da Associação de Socorros Mútuos Freamundense. Nomeada a comissão, fez parte da mesma.
Durante, aproximadamente, 30 anos, destacou-se como elemento activo nos diversos orgãos sociais da referida benemérita Associação.


Associação Socorros Mútuos Freamundense


Foi, também, um dos fundadores da Assembleia Freamundense.
Cidadão que não se sujeitava à humilhação nem alugava consciências, revelou-se, na política, propagandista republicano, integrando, em 1895, a 1ª Comissão Municipal Republicana do Concelho, liderada pelo Dr. Leão de Meireles.
Na Junta de Freguesia, serviu vários mandatos como tesoureiro e vogal, sendo nomeado secretário/escrivão da mesma de 1927 a 1941.
Este simpático e empenhado bairrista, faleceu no dia 16 de Setembro de 1942, com 72 anos de idade, no estado de viúvo desde 3 de Dezembro de 1933, no edifício da Ordem Terceira de S. Francisco, Freamunde, onde residia sua nora Carolina Marques da Costa.




O funeral, onde se incorporaram dezenas e dezenas de freamundenses, traduziu-se numa cerimónia simples, como ele gostaria; discreta, como discreto ele soube ser em vida; sentida como a sua rara sensibilidade exigia.
O "Homem" que só pensava estar ao serviço dos entes queridos, da terra que o viu nascer, dos desprotegidos, mesmo depois de morto surpreendeu. No seu testamento deixou expresso que grande parte das suas economias, fossem distribuídas pelos indigentes da freguesia.
Em 1983, por altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, o seu nome ficou perpectuado em placa toponímica: Rua Zézinho da Casimira (Começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa; Acaba na Rua Pintor Santa Marta).


Descerramento de placa toponímica pelo neto, Hermínio Pinto

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

JOÃO TAIPA

JOÃO Correia Gomes TAIPA: "UM SENHOR"


JOÃO Correia Gomes TAIPA


Há uns anos a esta parte, João Taipa, em amenas e longas conversas à mesa, quase sempre a mesma, do "seu" Café Teles, reabriu a arca de memórias que os anos iam diluindo. Conversas complementadas com pesquisas e entrevistas a amigos, companheiros e adversários "da bola" e que deram origem a um pequeno esboço biográfico, que retrata a trajectória de uma das mais respeitadas personalidades da sociedade local.

Joãozinho

 
No dia 30 de Julho de 1922, Joaquina Correia da Fonseca começou com as dores. O bebé, primeiro da união com Ernesto Gomes Taipa, ia nascer. Seria menino? Seria menina? Foi um rapazola, baptizado na Igreja matriz de Freamunde, pelo padre João da Cunha Lima, com o nome do padrinho, João, por sinal seu avô materno, João Correia da Fonseca.



Joaquina Correia da Fonseca

Ernesto Gomes Taipa
A infância, feliz, do Joãozinho passou sob o escudo protector e sufocante da mãe terna, dócil e ansiosa.
As primeiras letras aprendeu-as no ensino particular primário, junto da educadora Dª. Gertrudes "Bica". Seguiu-se a passagem para as denominadas "Escolas das Meninas", na Rua do Comércio, tendo como professores oficiais, Dª. Ana e José António Gaspar Pereira, entretanto falecido e substituído pelo colega Francisco Fernandes Valente. Curiosamente, numa época em que havia separação de sexos nas salas de aula.
O recreio tinha algo de especial. Foi aí que o jovem João "cresceu" para a prática do futebol. Nesse mítico largo, onde os alunos se recreavam, a bola feita de trapos já o seduzia. Aí, onde todas as ilusões de catraio ganhavam vida em forma de golo.


Escolas "das meninas", na Rua do Comércio

Formavam-se, então, duas equipas que, em renhidos despiques, lutavam ardorosamente pela vitória, sob o olhar atento do professor Valente.
Engraçado o facto de Joãozinho ser sempre escalado para a ingrata posição de guarda-redes. E porquê?... Como nesse tempo, fruto das dificuldades financeiras existentes na maioria dos lares, quase todos os alunos andavam descalços, o "árbitro", Francisco Valente, posicionava-o na baliza, entre as pedras que faziam de postes, equilibrando, assim, a situação - só Joãozinho e outro colega usavam botas ou chancas. Alguns meninos, poucos, sempre ganhavam o primeiro par de sapatos, mormente pela comunhão solene, que apenas podiam usar para o dever dominical, a missinha.
Corria o ano de 1933 quando, em Freamunde, surge a prática oficial do futebol, graças, sobretudo, ao dinamismo do padre Castro, figura carismática e incontornável desta comunidade. Aproveitando os operários da "Fábrica Grande", importante unidade fabril da qual era sócio maioritário, e com o auxílio de gratas figuras desta terra, entretanto elevada à categoria de Vila, dão-se a conhecer os "Onze Vermelhos", equipa que, pouco depois, passou a ter a denominação de Freamunde Sport Club e as cores do equipamento alteradas para azul e branco.
As escapadelas de Joãozinho para o "Carvalhal", palco dos sonhos, surgiram por volta de 1935. Joãozinho que almoçava num abrir e fechar de olhos para poder usufruir de mais um tempito e assim continuar a praticar o que mais gostava: futebol. Alegria dividida com tantos outros colegas.
O pai, Ernesto Taipa, raras vezes colocou, como se pode depreender, entraves à entrada precoce do rapaz no mundo do desporto até porque nunca teve necessidade de se preocupar com o seu aproveitamento escolar.


Campo do Carvalhal

A par dos seniores, formou-se pela primeira vez um grupinho de meninos, orientados por António Aloísio Correia. E foi na condição de guarda-redes que o "nosso" jovem disputou os jogos da "classe infantil" - Joãozinho ainda não tinha percebido que o seu lugar não era jogar com as mãos. 
O embate inicial foi contra os vizinhos da União Desportiva de Paços de Ferreira, encontro realizado em Meixomil e que terminou com a vitória dos freamundenses por 4-2.


35/36 (Equipa classe Infantil) - Em Cima: JOÃO TAIPA (g.r.) - António "Pataco" - Fernando Rego - Rodrigo "Passarinha" - João Campos - Maximino "Frita" - Miguel - Belmiro "da Riqueta"
Em baixo: Manuel "Bica" - Amâncio Torres - Zé "Baião".

Mas este projecto foi sol de pouca dura e os rapazinhos tiveram de fazer uma travessia no deserto até que completassem os 18 anos, idade permitida para o ingresso na classe sénior.
Sem competição e espaço para o pontapé na bola, o Largo da Feira passou a ser o palco predilecto desta garotada que ali se entretinha a jogar de manhã à noite sob o olhar de imensos entusiastas.



Largo da Feira

Em 1939, já em plena Grande Guerra Mundial, face à falta de ética de alguns elementos que tinham feito parte do plantel da temporada anterior, o Freamunde Sport Club, com a inesperada extinção da União Desportiva de Paços de Ferreira, clube rival e vizinho, aproveita a situação e "importa" de lá os seus melhores jogadores. A primeira "linha" do clube azul e branco passa a ser constituída por jovens com idades compreendidas entre os 18 e 20 anos. Só a João Taipa, então com 17 primaveras, foi permitida a inscrição, para poder ser apresentado oficialmente a um nível superior, após autorização da AFP e dos pais. Essencialmente do pai, Ernesto Gomes Taipa, uma grande referência em vários sectores desta terra, seguidor apaixonado e fiel do desporto-rei, porque a mãe preocupava-se com o bem estar do filho e temia que algo de mau lhe pudesse acontecer.
Nas horas livres, que eram muitas pois só se treinava uma vez por semana, Joãozinho ajudava os progenitores no comércio de mercearia e casa de pasto, onde o movimento, principalmente em dias de feira, era enorme.
Legalizado e já colocado na posição de "ponta esquerda", logo chamou a atenção do treinador, António Aloísio Correia, que, sem hesitar, lhe dá a titularidade numa formação de grande furor e que alinhava assim: Hercílio Valente, Zinho Sistelo e Leonel; António Augusto, Zé Viana e Xico "da Fonte"; Maximino "da Couta", Moreirinha, Alberto Matos, Adão Viana e João Taipa. Samuel, Ulisses Valente e António "Pataco" também deram o seu contributo em alguns jogos. É importante referir que nessas temporadas as substituições não eram ainda permitidas.


39/40 - Em Cima: Chico "da Fonte" - Zinho Sistelo - Miguel Barros - Hercílio Valente - Leonel - Zé Viana - Júlio Gomes (Dirigente) - Américo Taipa (Dirigente)
Em baixo: Maximino "da Couta" - Adão Viana - Alberto Matos - Alberto Augusto - JOÃO TAIPA


Duas épocas depois, mais propriamente em 1941/1942, o Freamunde Sport Club, com Lopes Carneiro, atleta do Futebol Clube do Porto, no comando técnico, sagra-se campeão distrital da III Divisão da A.F.P., o primeiro título oficial do seu historial conquistado de forma fulgurante.
Foi o delírio em Freamunde, Vila que se engalanou e cujas gentes receberam carinhosamente os seus "rapazes" à chegada do derradeiro jogo, em Gaia, contra o Unidos (ex-Cuf). Até Banda de música meteu, a de Freamunde, pois claro, que acompanhada de enorme multidão, adeptos fervorosos e indefectíveis de quase todas as freguesias do concelho (como isto mudou!), saudou efusivamente, com vários trechos das lindas partituras, os seus "heróis".
Dos 21 golos apontados pela equipa, 9 pertenceram a... João Taipa.



João Taipa

Adivinhava-se a glória do menino querido do "Carvalhal", já com rótulo de estrela. O seu destino como futebolista parecia traçado. E que destino!... Surpresa? Nem pensar! O bom jogador define-se cedo. A atitude, sempre suportada pela personalidade, o comportamento na vida particular, com regras e princípios, a forma como sabia gerir convenientemente os excessos, a maneira como procedia e reagia na inter-relação humana eram factores indicadores que sustentavam a sua futura realidade.
Passados que foram alguns meses, por influência de Júlio Pinto Ribeiro Gomes, freamundense dos sete costados mas radicado na "cidade invicta", que exercia as funções de delegado ou representante do Freamunde Sport Club junto da A.F.P., um emissário do Futebol Clube do Porto contactou o pai de João Taipa (estava, pois, lançado o canto da sereia), chegando-se a um acordo de princípio. Com esta "gente" sempre bastou a palavra.
Não foi necessário mais do que um treino efectuado para que a directoria portista solicitasse a apresentação, o mais rapidamente possível, nos seus serviços de secretaria da carta de desobriga, obrigatória para posterior inscrição do atleta no clube azul e branco, mas às riscas. Os "papéis", assinou-os João Taipa com caligrafia bem desenhada, que a tinha.
Dias depois já se "mostrava" com o emblema do dragão ao peito, sendo logo convocado para o jogo contra o Leixões, no campo do Lima, ganho pelos portistas por rotundos 7-1. João Taipa foi o autor de um dos golos.
Nessa época de 1942/1943, disputou praticamente todos os jogos calendarizados, alternando a equipa de reservas com a principal, esta a disputar a então denominada "Liga". A citada alternância deveu-se ao facto de João Taipa ter ingressado no serviço militar, impedindo-o de treinar assiduamente, o que o prejudicou bastante em termos futebolísticos. Quando regressou, passou a ser um bom activo do principal onze portista. O seu ídolo era Artur de Sousa "Pinga", um dos "monstros" sagrados do futebol português, imortalizado como um dos melhores jogadores da história do clube, sendo a maior honra o facto de ter sido seu colega de equipa. João Taipa actuava como extremo esquerdo e "Pinga" notabilizava-se nas funções de interior esquerdo, numa altura em que se praticava o WM (três defesas, dois médios e cinco avançados), sistema táctico idealizado como antídoto perfeito à lei do "offside".


42/43 (Equipa do F.C. Porto)  Em Cima: Alfredo Pais - Chico - Pocas - António Nunes - Baptista - Valongo
Em baixo: Carlos Pratas - "Kikas" - Araújo - "Pinga" - JOÃO TAIPA

Admirou igualmente esse exemplar companheiro, jogador e cidadão que foi Araújo, mais tarde também técnico do Freamunde Sport Club. O primeiro "mister" de João Taipa no F.C.Porto chamava-se Siska, guarda redes de origem húngara, de classe invulgar, que empolgou Portugal de lés-a-lés, tendo ainda, na parte final da sua passagem pelos portistas, os ensinamentos de outro magiar, Josef Szabo.
O futebol para João Taipa não era exclusivamente profissional. Longe disso. O clube apenas lhe pagava as despesas que contraía, sobretudo com viagens e alimentação. Quinhentos escudos, era o máximo que recebia mensalmente. Mesmo assim ainda conseguia comprar umas roupitas e amealhar alguns tostões. Ocupava as horas livres para trabalhar, como escriturário, numa das empresas de Júlio Gomes.
Por questões de "feitio", saudoso da sua querida terra, consegue, com o auxílio do primo, Domingos Taipa, a desvinculação do F.C. Porto e regressa, de novo (como o filho pródigo), ao clube do seu coração, o Freamunde Sport Club, já com os estatutos criados e aprovados. Por determinação superior a agremiação passaria, um ano após, a denominar-se "Sport Clube de Freamunde".
Estava nessa altura, época 1944/1945, o Freamunde a disputar a "Promoção", sendo o seu regresso, conjuntamente com o de Hercílio Valente, guarda redes oriundo do andebol portista, duas mais valias para o seu plantel.


44/45 - Em cima: Maximino "da Couta" - Maximino "Frita" - Alberto Matos - Belmiro "da Riqueta" - Zeca "Mirra" - Casimiro "Vaidoso"             Em baixo: Leonel - JOÃO TAIPA - Américo - Adão Viana - Joaquim Pinto "Maneta"



45/46 - Em Cima: Salvador "Pataco" - Zeca "Mirra" - Hercílio Valente - Belmiro "da Riqueta" - JOÃO TAIPA - José Maria "da Couta"                   Em Baixo: Leonel - António "Pataco" - Alberto Matos - Adão Viana - Joaquim Pinto "Maneta".



46/47 - Em Cima: Zeca "Mirra" - Agostinho Machado "Barroco" - Casimiro "Russo" - Belmiro "da Riqueta" - Quim "Bica" - Hercílio Valente        Em Baixo: João "Cherina - José Maria "da Couta" - Adão Viana - JOÂO TAIPA - Amaro "da Cavada"


João Taipa era dotado de excepcional preparo físico, o que lhe permitia aguentar uma partida inteira ao mais alto nível, independentemente da idade, apenas encerrando a carreira aos 42 anos. Jogaria, então, com as cores azuis e brancas até 1966, perfazendo, portanto, 27 anos de actividade futebolística. Foi no dia 16 de Maio do referido ano, num Freamunde-Paredes, jogo a contar para a prova extra organizada pela A.F.P., ganho pelos anfitriões por 3-1, que se assistiu ao momento mais sublime, mais contagiante: o eterno e insaciável goleador pendurava as botas. Foi difícil, pois o "craque" parecia querer prolongar ao máximo uma carreira fantástica que inevitavelmente terminaria.


50/51 ("Os Argentinos")
Em cima: Peixoto - Alberto "Mirra" - Casimiro "Russo" - Zeca "Mirra" - Zé Viana - Manuel Pinto
Em baixo: Adão Viana - João "Cherina" - Quim "Bica" - JÃO TAIPA - José Maria "da Couta"
 




58/59 - Em Cima: António Lopes - Alberto "Mirra" - Barbosa - Zé Manel - Luís "Mirra" - António Rego - Quintela
Em baixo: Arnaldo - Ivo - Humberto - JOÃO TAIPA - José Maria "do Talho"




63/64 - Em cima: Quintela - Zulmiro - Zé Manel - Luìs "Mirra" - Ribeiro - Barbosa
Em baixo: Vitorino - Ivo - JOÃO TAIPA - Humberto e Júlio


João Taipa foi um jogador inteligente que transpirava técnica, esforço e coragem. Um líder inspirador e um exemplo perfeito para quem o rodeava. Um jogador completo, que esbanjou arte pelos "pelados" e que contribuiu para o fulgor do espectáculo, que se tornou a referência da célebre equipa dos "Argentinos", assim alcunhada por fazer lembrar a famosa formação do São Lorenzo de Almagro que deslumbrou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou. A euforia era tal que os êxitos da rapaziada foram transportados para o palco. Da revista de costumes em dois actos "Freamunde é coisa boa" - original e música de Fernando Santos (1ª representação, na ASMF, em 25 de Dezembro de 1951 -, surgiu o hino, de sucesso assinalável, que jamais se apagará da memória dos freamundenses, várias vezes recordado e cantado em jornadas de evocação e saudade.




Também treinador, sempre que chamado para ocupar o "lugar" deixado vago por alguns timoneiros que pelo S.C. Freamunde passaram.
Joãozinho, a certa altura, fez questão de frisar o seguinte: «Ainda recordo um jogo que fizemos em Amarante. Tive necessidade de proceder a uma alteração na equipa e lancei mão de um jovem acabadinho de sair dos juniores, a despontar, que assim se estreou no "team" principal: António Couto, um menino irreverente mas virtuoso. Dos mais habilidosos avançados que conheci, a par, sem desconsiderar todos os outros, de Humberto, Ernesto, por sinal meus parentes, e Rui "da Praça". Couto era malandreco, mas, não sei porquê, sempre gostei dele e dele recebi respeito e amizade». Soltou-se-lhe uma lágrima no canto do olho.



Humberto - JOÃO TAIPA - Ernesto



JOÃO TAIPA e António Couto

João Taipa foi também um dos principais responsáveis por muitos pacenses, de quase todas as freguesias do concelho, torcerem pelo Freamunde; por alimentar a rivalidade com o Vasco da Gama, hoje Futebol Clube de Paços de Ferreira. Com ele em campo o Freamunde sempre venceu o vizinho. Nem um empate cedeu, sequer. Quanto a golos nas redes contrárias, nem se fala!



52/53 - Fase do Jogo Particular, Freamunde/Vasco da Gama (4-0), no campo do "Carvalhal"



57/58 - Fase do jogo Vasco da Gama - Freamunde (0-3), na "Cavada".


Joãozinho deixou, ainda, a mística do seu nome e da sua ação, sobretudo no pelado do "Carvalhal", onde viveu, e fez viver, muitas tardes de glória, ligadas a outro factor: os célebres "penaltys" à Taipa - guarda-redes para um lado, bola para outro. Era, nessas décadas, o ídolo da catraiada. Nas escolas, nas ruas, todos os miúdos queriam ser... João Taipa.
Os treinadores que mais o marcaram durante as épocas em que praticou futebol foram o professor Gil Aires e Joaquim Tavares Guiomar "Rola". Dos colegas, dirigentes e adeptos, sem exceção (sem eles, sem a sua ajuda, conselhos e amizade, com quem partilhou horas inolvidáveis, não seria quem foi, no desporto e na vida), sempre sentiu um enorme carinho e respeito, orgulhando-se das façanhas conseguidas, mas, sobretudo, do prazer que lhe deu conviver com todos os agentes desportivos ao longo da sua extensa e brilhante carreira.


Gil Aires e João Taipa


João Taipa e Joaquim Tavares Guiomar "Rola"



A OUTRA "VIDA" DE JOÃO TAIPA

João Taipa casou já um pouco tarde, com 37 anos de idade, no dia 15 de Novembro de 1959. Escolheu para sua mulher, com laços parentescos, Neusa Gomes Taipa. Não foi, portanto, um namoro inocente. Um elo forte se fizera, então, entre estas almas. Do enlace resultou o nascimento de três filhas, três Marias: Maria de Fátima, Maria da Graça e Maria Ilda.
Sempre pelo "Café" do cunhado, António Teles de Menezes Júnior, e auxiliar precioso do pai, negociante da casa de pasto que mantinha aberta na parte traseira do prédio (que saudades dos melões do António "Caçoila", as jogatanas de sueca ou da bola de pau, as célebres rojoadas e papas de sarrabulho pela Santa Luzia - tradição que ainda hoje se mantém -, os bolinhos e iscas de bacalhau, a afamada "pinga" de tintol do "Pinheiral"!...), Joãozinho tardava em dar outro rumo à sua vida. Depois lá se decidiu e aceitou o convite que lhe foi formulado para sócio-gerente da "Ibermetais", acumulando as funções de escriturário. Por pouco tempo. Uma quinzena de anos, talvez. De comum acordo, cede a quota que possuía na firma à sobrinha, Gininha, e obtém concessão para a exploração do Café Teles, que passou a gerir como único titular. Foi o princípio de quase tudo, confortavelmente amparado por este comércio hoteleiro e que seria o principal meio de subsistência durante o resto da sua vida, sempre estabilizada e sem sobressaltos. Gestão galgada pela dedicação, seriedade e amabilidade.
O seu estabelecimento era o principal ponto de encontro de várias gerações que não prescindiam de um aromático café, primeiro de saco e depois "Cimbalino", de um fininho à maneira... Nas tertúlias, pacíficas e cordiais, lá se punha a conversa em dia. Era imperativo, primeiro que a leitura dos diários. Os "desportistas", esses, que os havia e bons, optavam por uma partidinha de bilhar livre ou de matraquilhos. Ah, João Taipa também era exímio a pegar no taco.
A idade da reforma chegou e João Taipa cedeu o espaço à exploração, situação que ainda hoje se mantém.


À esquerda, a antiga mercearia e casa de pasto, hoje Café Teles


JOÃO TAIPA ALVO DE VÁRIAS HOMENAGENS

Por iniciativa da FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL:
Durante as cerimónias de abertura das comemorações do 50º aniversário (Maio de 1964) daquele Organismo, a que presidiu o Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás, João Taipa foi o atleta, a nível nacional, como exemplo de disciplina, escolhido e utilizado para porta-estandarte da FPF, a qual recebeu a medalha de Mérito Desportivo. Foi um momento de rara emoção ao iniciar-se o Congresso Nacional de Futebol.


João Taipa e Almirante Américo Tomás

Noutro passo, na brilhante dissertação sobre o tema "VIDA E FUTEBOL", o Comodoro Eduardo Scarlatti Quadrio Raposo, personalidade de espírito irrequieto e multifacetado, engenheiro, crítico de teatro, jornalista, ensaísta, dramaturgo, poeta..., apontou e enalteceu as virtudes que representam a "disciplina" e a "educação": 
«........E nós temos exemplo valioso desse resultado obtido pela cultura física no modesto operário, praticante em desporto desde 1938, há cerca de vinte e seis anos, dois no F.C. Porto e os restantes em agremiação - Sport Clube - de uma terra - Freamunde - quasi desconhecida de muita gente. Ele nunca deu motivo à mais ligeira punição, por falta de respeito pelos adversários,  ou pelas regras de um são desportivismo. É o porta-estandarte nesta comemoração, Senhor João Correia Gomes Taipa, e que muito grato me é trazer a uma citação de relevo nesta hora festiva para o desporto nacional».
A enorme assistência presente coroou aquelas palavras com prolongada salva de palmas, que deixou João Taipa visivelmente emocionado.

















...DA AUTARQUIA

A Câmara Municipal de Paços de Ferreira tomou a liberdade de testemunhar publicamente todo o apreço por comportamento tão exemplar, deliberando transcrever em pergaminho esta decisão, com o fim de ser entregue ao atleta em referência, em sessão de homenagem a efectuar no dia 28 de Maio de 1964.






...DE FREAMUNDE

Freamunde prestou no dia 18 de Maio de 1964 a maior recepção a um dos seus filhos, JOÃO TAIPA, acabadinho de chegar da capital portuguesa onde prestigiou o clube e a terra que o viu nascer, pela missão que lhe foi confiada na abertura das comemorações do cinquentenário da FPF.
O cortejo organizou-se à entrada da Vila e nele se incorporaram todos os atletas do Sport Clube de Freamunde, dois ranchos folclóricos, a Banda de música local e muito, muito povo.
Presentes, ainda, representações de Agremiações Desportivas, com os seus estandartes - F.C. Paços de Ferreira e Ermesinde F.C.





Na sessão solene que se seguiu - a mesa de honra foi colocada na esplanada do bar dos Bombeiros, coladinha ao "Coreto" -, vários oradores explicaram a justeza da manifestação e enalteceram as virtudes do homenageado como cidadão e como desportista. João Taipa, colocado no estrado da mesma, empunhava garbosamente a bandeira azul e branca do seu clube.














Foi ainda tornado público, pelo Professor Albano Morais, representante da Associação de Futebol do Porto e Delegado Geral dos Desportos, que lhe iria ser concedida a medalha de ouro por "Mérito Desportivo" da FPF, deliberação criada em 1951 pelo Governo Português para galardoar os serviços em prol do desporto nacional, bem como um livre trânsito perpétuo.



...DOS FREAMUNDENSES...DA AFP...DA COMISSÃO DISTRITAL DE ÁRBITROS...DOS CLUBES 

Um grupo de indefectíveis freamundenses organizou, no dia 1 de Janeiro de 1970, uma festa de Homenagem a João Taipa, um verdadeiro "gentleman" do desporto e do "fair play", talvez inspirado no ídolo inglês, "Sir Stanley Mattews".


Comissão Organizadora da Festa, com o Homenageado: Em cima: Valentim Moura, Hermínio Pinto, Renato Moura, João Taipa, Fernando Leal,                           Em baixo: Prof. Alfredo Barros, Nelson Lopes e Luís Alberto Teles Menezes


Num "Carvalhal" repleto de público, a componente desportiva constou de dois encontros de futebol: S.C. Freamunde - 1 / F.C. Penafiel - 4, e F.C. Porto - 2 / Vitória de Guimarães - 0.











Antes do início deste último jogo, com todos os jogadores alinhados no centro do terreno, Nuno Brás, conceituado jornalista nacional, fez, de forma eloquente, o elogio público do homenageado.
Como o prometido é devido, o Dr. Luís Guedes, em nome da Associação de Futebol do Porto e da Federação Portuguesa de Futebol, depôs nas mãos de João Taipa as três medalhas já referidas, representativas, não só pela extensa actividade e completa ausência de qualquer penalidade, exemplo pouco vulgar no desporto nacional, mas essencialmente da sua melhor formação moral, talvez moldada ou aperfeiçoada no exercício da própria modalidade.


O Dr. Luís Guedes condecora João Taipa




A Comissão Distrital de Árbitros fez-se representar pela fina flor do conselho: os internacionais Francisco Guerra e Clemente Henriques (que bonito exemplo! Nos tempos actuais estas atitudes já não existem).





João Taipa ladeia os árbitros internacionais, Francisco Guerra e Clemente Henriques. Reconhecem-se, ainda, Valentim Moura, Júlio Sousa, Fernando Leal e António Carneiro.


Uma deputação do Ermesinde F.C., constituída por estandarte e três ex-jogadores, ao tempo adversários de João Taipa (Louceiro, Álvaro Veiga e José Moreira), também marcou presença. O futebol ainda era, aqui e ali, uma escola de virtudes. Agora...!
O homenageado agradeceu, comovido, todas as manifestações de carinho, dando então a volta de honra acompanhado por todos os atletas. João Taipa, durante a sua longa carreira, disputou mais de 800 jogos e rubricou uma imensidade de golos.
Do livro editado, em 2008, por Joaquim Pinto, "Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória", pode ler-se: «...Dono de uma personalidade fascinante, João Taipa despediu-se em glória. Mais do que um jogador, foi um desportista que não aboliu dimensões fundamentais da existência humana.
Nado e criado neste torrão, o nobre e ilustre cidadão João Taipa é o orgulho de todos os que sempre o estimaram. Paradigma da personalidade que a sociedade atual, tão corrompida, carece, honra-nos a todos nós.
A João Taipa o futebol nunca deu. O futebol recebeu. Tentar imitá-lo; aproveitá-lo, ainda...Sempre».






O ETERNO ADEUS

A notícia da morte de Joãozinho causou, em Freamunde, profunda consternação. Contava 91 anos de idade.
Nas cerimónias religiosas, a oração fúnebre foi proferida, com eloquência e emoção, pelo familiar, D. António Maria Bessa Taipa, Bispo Auxiliar da Diocese do Porto, filho querido desta terra.
Os jornais regionais não tardaram a divulgar a notícia do triste desenlace.
Da "Gazeta", pela pena de um dos seus colaboradores em Freamunde, Joaquim Pinto: «... Freamunde está de luto. Morreu João Taipa. Agora resta entregar aos mais novos o testemunho da nossa admiração pelo homem, pela figura inconfundível de cidadão e desportista. Pelo "menino" querido do "Carvalhal", pelo jogador invulgar que empolgava as multidões e criava simpatia nos que o rodeavam, deixando indeléveis recordações, inclusive, nos adversários, árbitros e em todos os adeptos do futebol.
O Joãozinho simboliza, simbolizará sempre, o "velho" Freamunde erguido por gente bairrista e dinâmica, por homens de têmpera que sabiam quanto custava a vida e quanto esforço era preciso para enfrentar e vencer, glorificando a camisola, azul, da mesma cor do fato de ganga». 
Foi tributado várias vezes. No dia 7 de Abril de 2001, numa iniciativa do jornal "Tribuna Pacense" - "Prémios Tribuna/13ª edição", no ato oficial de atribuição dos galardões, foi laureado como futebolista exemplar.
Em 2003, foi relembrado, com exposição documental na Associação dos Socorros Mútuos Freamundense, e sessão solene no Auditório Fernando Santos, Casa da Cultura de Freamunde, tudo englobado nas "Jornadas de Reflexão e Saudade", da responsabilidade da "Associação Recreativa e Cultural Pedaços de Nós".
Já em 2001, deixara-se "retratar" na obra do poeta popular, António "Rodela", "Pedaços de Nós", com ilustração de Vitorino Ribeiro. O soneto acabou musicado com sucesso, e o espectáculo proporcionado, em palco montado no Centro Cívico, ficará para sempre na memória de quem o presenciou. 
























A própria estação televisiva, Sport TV, fez deslocar a Freamunde uma equipa de reportagem para captação de imagens e entrevista ao ilustre desportista. O "trabalho" foi para o ar, dias depois, num domingo, inserido na programação da noite.
Ventilou-se, então, a hipótese, com pernas para andar, de perpetuar o seu nome em placa toponímica a colocar e descerrar, em data oportuna, na rotunda do Estádio do S.C. Freamunde. A proposta, entretanto, chegou, para discussão, à Assembleia de Freguesia, sendo aprovada por unanimidade.
Certa a atribuição, com o nome de João Taipa, do Prémio "Fair play", a nível concelhio, confirmado em recente sessão da Assembleia Municipal, por moção do Dr. José Neto.
João Taipa só tinha amigos. Homem de hábitos simples, não dispensava, mesmo na reforma, visita diária ao "seu" Café Teles, cavaqueira com o parceiro de mesa, Alfredo Matos "Cherina", a caminho dos ...101, a leitura assídua dos jornais diários (devorava os desportivos), dum livro de qualidade, sobretudo de Eça de Queirós, futebol na televisão, um bom filme, casa e família, onde procurava a tranquilidade e suspirava por qualquer tipo de prato de bacalhau.


Alfredo "Cherina" e João Taipa no Café Teles

Freamunde vai ter dificuldade em fabricar personalidade igual.
João Taipa sobreviverá ao tempo que caminha e destrói a memória dos homens.
João Taipa partiu para todo o sempre. Ou talvez não. Os génios do bem nunca morrem.
Resta-nos agradecer. OBRIGADO, Joãozinho.