sexta-feira, 18 de novembro de 2016

DOS FRACOS (?) TAMBÉM REZA A HISTÓRIA - "BICHA DA BOUÇA"

JOAQUIM FERREIRA TAIPA "BICHA DA BOUÇA"
1908(?) -1985

Era uma vez um jornaleiro, filho de Claudino Ferreira Taipa e Rosalina Pereira do Carmo, de nome Joaquim, carinhosamente tratado por "Bicha da Bouça", talvez por ter nascido e residir no lugar da... Bouça, nesta freguesia.
Pobre como era, perguntava-se, certamente, na altura o que lhe iria acontecer; testemunhos de gente da sua geração, pessoas credíveis - não sou dado a certas "fontes" -, descrevem-no como alguém alimentado mais a sonhos que a outra coisa qualquer.
Produto de uma família que mal tinha dinheiro para o pão e vinho sobre a mesa, que sempre viveu à rasquinha, cedo teve de se fazer homem à pressa e ir trabalhar à jorna, no duro. Ganhar algum para que os dias não fossem tão dolorosos. Assim atravessou a meninice. Sem escola, sem as brincadeiras de crianças passadas à sombra das frondosas tílias (uns anos mais tarde substituídas por plátanos), no largo da Feira, onde os pássaros, imensos, davam voz às árvores; sem esperança que o "trabalho" o resgatasse da miséria. Miséria que, infelizmente, assombrava grande parte dos lares nesta terra. Neste país. A realidade, à época, era esta, bem diferente da actual. Tempos em que, às refeições, havia uma cabeça de sardinha para três irmãos. Em que os meninos andavam descalços. Pés descalços e roupas esfarrapadas. Com piolhos na cabeça e ranho no nariz. Assim mesmo!
Jornaleiro "documentado", perito na extracção de raizeiros e seu desmembramento (dizem que a "vontade" não era por aí além, custava-lhe bastante arregaçar as mangas, mourejar assiduamente), da vida, do que ambicionava, Joaquim nada obteve. Enquanto para muitos o descanso era o trabalho, Joaquim foi atacado por uma doença: o vinho. Iniciou cedo o seu processo de alcoolização, que lhe deu fama mas não proveito.
TASCA DAS ELVIRINHAS
As minhas memórias, as mais gratas recordações, levam-me aos tascos d'Arminda "da Couta", das Elvirinhas, do Américo, do 28, do Viana, do Manel "da Balbina"... Foi aqui, talvez, para Joaquim, o poiso ideal desde a juventude. Assim o demonstra a fotografia. De fato domingueiro e chapéu na cabeça, o "nosso" homem ostenta garbosamente a caneca de porcelana, mimada como ninguém, sempre na vazante. Era deste modo que perdia a inibição: "Bastava cheia!... Bastava cheia!"...

Joaquim exibe com certa vaidade a sua "cara metade"
E tão focado ficou na "matéria" que quase ignorou o resto. Quase, porque não era ele apenas que consumia álcool, era o álcool que o consumia.
Nunca casou, manteve-se eterna e orgulhosamente solteiro, mas "namorou", sem desfalecimentos, as "canecas" (de todas as castas, de feição escura, branca, rosé... Não era esquisito!), e não foram assim tão poucas, formando um casal perfeito. Por mais "brigas" que tivessem, não se separavam por nada. Sempre houve união e cumplicidade. Uma verdadeira história a dois. Sem interferências.
Com a morte dos pais, passou a viver sozinho na velha casa da "Bouça", sombria, mas que se manteve sempre de pé, quase a ruir, mas de pé, com alguns contornos mal definidos, propriedade do irmão, António, radicado no Brasil mas com procurador cá.
Para sobreviver, não encontrou outro "remédio":  estender a mão aos amigos. Que os tinha. Nunca se tornou o alvo preferido do desprezo e da chacota, grosseira e canalha. Não. Cumprimentador, todos lhe devolviam a gentileza, apesar do rosto fechado (não sabia sorrir, fazia apenas um esgar).
O.R.M., no jornal "Fredemundus", dedicou-lhe uma crónica, há vinte e cinco anos atrás, porque o admirava e conhecia relativamente bem. Eis alguns fragmentos: «...movia-se vagarosamente  pelas ruas e caminhos pedinchando aqui e acolá umas moedas que convertia no único prazer da sua vida: canecas de vinho e copos de bagaço. Quando o peditório era feito à porta de alguma habitação, a moeda recebida era justificada por umas orações ininteligíveis pelo resgate das almas dos mortos da casa. (...) Adepto das grandes verdades, simples como as gotas de chuva, ia, às vezes, ao cemitério inspirar-se para as suas reflexões sobre a vida e os seus prazeres. Ao constatar que no fundo das sepulturas, os defuntos, na sua imobilidade horizontal, não sentiam fome nem sede e estavam imperdoavelmente encarcerados na eternidade, descia veloz à loja do Manel "da Balbina" e entornava mais uns copos, com urgência febril, que amanhã poderia ser tarde».
E foi assim, na escadaria do cemitério, que o "apanhámos de ar cansado (só a "caniça" lhe erguia a espinha), nariz afilado, cabelos grisalhos, desalinhados, sem conhecer o pente há muito (havia simulado tirar o chapéu, para a saudação, logo que nos encarou),  sobrolho arqueado, cara de poucos amigos - o sorriso deixou de fazer parte da sua vida. A expressão do olhar era trágica e melancólica. De sobretudo cinzento desabotoado, cachecol, as frieiras das mãos agasalhadas nos bolsos das calças puídas, meias de cores distintas, botas abertas nas biqueiras, para "arejar", talvez a curar-se da última ressaca, que muitas vezes se sobrepunha à penúltima e à antepenúltima. Parecia confuso, e com razão. Tudo parecia desmoronar-se à sua volta.

O último registo de Joaquim Taipa "Bicha da Bouça" é esta fotografia desgastada pelo tempo, obtida, ocasionalmente, por Pedro Pedra, nas escadarias do cemitério nº 1 de Freamunde
Trocámos algumas palavras. Quando terminámos a conversa (discurso pouco fluído da sua parte mas fino e irónico) inclinou ligeiramente a cabeça, fixou-nos de esguelha e perguntou timidamente: - Não têm por aí vinte escuditos para uma sopinha (!) no Américo? Claro que tínhamos.
O "AMÉRICO" NA SUA TASCA

Depois de uma estadia no "Lar António Barbosa", em Paços de Ferreira, onde apenas asilava nos rigores do Inverno, foi encontrado inanimado na sua residência, com ferimentos na cabeça. Socorrido pelos vizinhos, a única "família" que possuía, e transportado para o Hospital de Paredes, aí faleceu serenamente  no dia 26 de Janeiro de 1985, em completa indigência.
O funeral fez-se, a acompanha-lo uma dúzia de "gatos pingados". Foi para a terra fria, como muitos outros que se vangloriaram ser ricos só porque tiveram dinheiro. Joaquim "concentrou e condensou no acto de beber todos os prazeres da sua vida".
A factura do cangalheiro e as dívidas na mercearia foram saldadas por um fundo de poupança efectuado por alguém bem intencionado e saído de uma pequena pensão de velhice que lhe tinha sido atribuída.
Desapareceu, assim, a figura de um homem singular, típico, matreiro,  castiço, de um lote de que já não resta ninguém. Os actuais não têm "pinta".



terça-feira, 8 de novembro de 2016

ALEXANDRINO CHAVES

ALEXANDRINO MARIA CHAVES FERREIRA VELHO

(31-08-1862 / 22-7-1913)



Alexandrino Maria nasceu na freguesia de Freamunde, fruto da união entre José Maria Ferreira Velho e Delfina da Conceição Chaves, baixados à sepultura nº 2 da Ordem Terceira de S. Francisco no mesmo ano de 1884 (17 de Dezembro e 30 de Outubro, respectivamente).
Teve dez irmãos: Augusto Maria "Reverendo", Ermelinda Rosa, Rosalina Augusta, Maria Augusta, Antero Maria, Abílio Maria, António Maria, Amélia Augusta, Adelino Maria e Albano Maria.
Digníssimo tabelião público no Julgado da Paz de Freamunde (cargo que não tinha ordenado estipulado e que dependia exclusivamente da confiança da "clientela"), com escritório na sua residência, em S. Francisco, viu-se envolvido, decorria o ano de 1896, em questiúnculas partidárias que visavam concessões chantagiosas - passar por cima de valores fundamentais em nome de um negócio mesquinho, a compra dos votos dos freamundenses, a uma "vaga" no tabelionado. O "lugar", conseguido a troco dum pesado sacrifício, foi-lhe disputado por José Cândido da Silva Torres, solicitador em Paços de Ferreira, com o apoio do partido monárquico, Progressista, no poder. O "movimento" esboroou-se e prevaleceu o bom senso: Alexandrino Chaves não foi obrigado ao vexame de dever o seu lugar a "cedências" políticas. Conseguiu-o por direito próprio. A honra não se vende.
Foi casado com Anna Pereira Aranha Torres, natural de Santa Marinha de Nespereira, Cinfães, viúva de Manuel Albino da Costa Torres, de Freamunde.
Alexandrino e Ana não tiveram filhos.
Alexandrino enviuvou em 12 de Março de 1900, vindo a contrair matrimónio, em segunda núpcias, no dia 10 de Dezembro de 1903, na Igreja Paroquial de Figueiras, com Ernestina Maria Gomes Rego, de 18 anos de idade, senhorinha de excepcionais dotes de beleza e coração, filha de António Ferreira Rego e Maria Gomes Rego. Estava, assim, preenchido o vazio da sua solidão.

Alexandrino Chaves e esposa Ernestina Maria
Deste enlace resultou o nascimento de dois filhos: António Maria e Ermelinda Maria.
Personalidade relevante, de frágil fisionomia (existem fotografias que mostram um homem franzino, esguio, barba aparada rente, mas de porte aristocrático), requintadamente aprumado no vestir, "bon vivant", cedo se embeiçou por causas nobres.

ALEXANDRINO CHAVES


A Associação de Socorros Mútuos Freamundense era a menina dos seus olhos, sendo por todos considerado um dos grandes impulsionadores da Instituição, tão útil e benemérita.
Serviu-a com denodo e paixão. Fez parte da comissão para a criação da mesma, em 1890. Até à sua morte, em 1913, foi relator do processo dos Estatutos, Tesoureiro da Comissão Provisória, e, por diversas vezes, Presidente e Secretário da Direcção, Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal.
Por justiça, foi-lhe concedida a presidência da 1ª Assembleia Geral que se efectuou no novo edifício da Associação.
A seu tempo recebeu significativa homenagem, com colocação de fotografia a "crayon" na galeria daquela Instituição, em 19 de Março de 1894, descerrada pelo padre Maximino Ferreira Alves. Já saudoso, em sessão ordinária de 8 de Fevereiro de 1914, pelo presidente da ASMF, António José de Brito, foi proposta pintura a óleo do benquisto benemérito, por um dos melhores artistas da cidade do Porto. A "obra" foi descerrada pelo padre Florêncio de Vasconcelos durante a sessão solene do 19 de Março desse mesmo ano.

ASMF
Diplomado, sabia muito, de tudo falava e escrevia, revelando-se também como músico de inegáveis capacidades, iniciação na arte propiciada por lições advindas de seu pai. Horizontes musicais abertos, piano, violino, flauta e clarinete eram alguns dos instrumentos que, com mestria, tocava nas reuniões dançantes, frequência das pessoas distintas da época. O seu fascínio pela cultura dos sons levou-o, inclusive, a dedilhar primorosamente uma cítara (guitarra com caixa de ressonância em forma de pêra). Tudo nele era sensibilidade artística, exemplo raro de virtuosismo, originalidade e criatividade.
Benemérito, ofereceu à Câmara Municipal, água para abastecimento do mercado, em Freamunde. O "nosso" povo, grato a quem servia e lutava desinteressadamente pelo progresso da Terra e seu bem estar, não se poupou a esforços e preparou para o dia da inauguração (16-04-1896) enormes festejos, «com música, foguetes e embandeiramento. A Praça, enfeitada com flores, tinha à entrada um lindo arco artisticamente construído onde se liam as iniciais A.C. (Alexandrino Chaves). Num ambiente de perfeito delírio, onde não faltou a vereação municipal, a população, numa manifestação espontânea de apreço e gratidão, passeou Alexandrino Chaves aos ombros».


As bicas da "velha" PRAÇA
Em 1896, deixou-se seduzir pelo teatro, aproveitando as receitas dos espectáculos para precioso auxílio e "empurrão" na edificação da Associação de Socorros Mútuos. As primeiras peças apresentadas foram o drama "Leonardo, o Pescador" e a comédia "Quem tem dinheiro... tem medo". Em 1898, ele próprio redigiu um drama original, "Ernesto, o Enjeitado", representado num salão por si construído no quintal da residência onde habitava, apelidado de "Teatro de S. José", mesmo com os escassos quadros humanos existentes para tão difícil tarefa.

O palacete onde viveu Alexandrino Chaves
Ele por si desempenhava os papéis de autor, ensaiador e de figura em cena.
Seguiram-se comédias e cenas cómicas... Outras... E depois outras...
As receitas de "bilheteira" ( a "casa" era passada à gente da "elite") ajudavam, e muito, a "erguer" a Associação.
A partir de 1904, porque se esfumaram quase todos os testemunhos contemporâneos, pouco se sabe da sua vida social, entregue que foi, nesse mesmo ano, a pasta de encenador a Henrique de Vasconcelos.
Mesmo assim, encontrámo-lo referenciado, em 1901, como "Juiz" das Festas em honra de S. Sebastião, reaparecendo, em 1913, na presidência das mesmas, já "convertido" ao vegetarianismo e com a doença (tuberculose), que o levaria à morte prematura, a miná-lo de forma galopante. Por sinal, sua esposa faleceria pouco tempo depois (9 de Outubro de 1914), com apenas 29 anos de idade, eventualmente vitimada pelo mesmo bacilo.
Curiosamente, já em 1899, o distinto tabelião havia sido incomodado com uma hemiplegia (paralisia que atinge uma das metades do corpo, a maior parte das vezes devido a uma lesão cerebral no hemisfério oposto), doença que, contudo, não se revelou de gravidade extrema.
Em 1909 (4 de Julho), na calorosa recepção a D. Manuel II, na passagem em Freamunde rumo a Amarante, ao Rei foi entregue uma mensagem que levou a assinatura, entre outras, de Alexandrino Chaves.
Na ribalta política, parece ter-se dedicado aos preceitos monárquicos.
Alexandrino Chaves desceu à terra para todo o sempre no dia 22 de Julho de 1913, curiosamente poucos dias após ter servido, como "Juiz", aos festejos do Santo Mártir.
Ainda há pouco tempo (!) havia gente (César Ribeiro, por exemplo) que carregava memórias do funeral: « Indiscritível, medonho! Nunca assisti a um cortejo fúnebre tão imponente e sentido. A emoção atingiu o clímax. A terra inteira veio para a rua. Gente do campo, gente humilde que se despedia do amigo, do freamundense de gema. Alas de pessoas, que cresciam a uma velocidade impressionante, de archotes acessos ao longo do percurso».    
Pessoas, todos os sócios que o próprio presidente da Assembleia Geral da ASMF havia convocado em sessão extraordinária para, em elogio, fazer-lhes sentir a «dolorosa e irreparável perda do inolvidável protector da Associação. Dos seus mais firmes e constantes sustentáculos. O seu trabalho e o seu dinheiro nunca faltaram quando a elle se recorria. Foram de tal ordem o zelo e dedicação que este benquisto benemérito da Associação a ella se consagrou, foram de tal magnitude os seus serviços que difícil se torna innumera-los numa simples acta de sessão. Por bem conhecidos e avaliados, eles deverão ficar perpectuamente gravados no coração reconhecido de todos os sócios, que nelle perderam o mais valioso e desinteressado companheiro, e dele herdaram o mais salutar modelo a imitar».
Seria, pois, uma falha, uma injustiça de todo o tamanho, não exaltarmos, não darmos a conhecer, a grandeza do homem, do cidadão Alexandrino Chaves, seu carácter e envolvimento nas causas sociais e culturais do torrão que o viu nascer.
Afirmamos com toda a segurança, que a sua obra, a sua personalidade de criador, a sua inteligência, o seu bairrismo, foram e continuam a ser apreciados por todos os freamundenses.
Pasmo como foram necessários mais de oitenta anos após a sua morte para que Freamunde homenageasse, em placa toponímica, um dos vultos mais relevantes que a serviu.
Nesta matéria, andava muita gente distraída. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

QUIM "LOREIRA"

JOAQUIM CARNEIRO DA SILVA "QUIM LOREIRA"
(27-02-1927/17-021993)


 
Filho de Joaquim Carneiro da Silva e de Joaquina de Sousa, era membro de uma família humilde, modesta mas considerada de Freamunde, "Os Loreiras", nascida e criada na Gandarela, lugar emaranhado de ruelas e becos, na época em que o facto constituía um drama, querendo dizer, simplesmente, ser pobre.
Também lá nasceram, certamente, advogados, médicos..., mas a maioria era "pé descalço".
De corpo franzino e seco, bigode à Clark Gable, rosto marcado por uma vida de dura luta, certo dia, em animada cavaqueira junto ao Café Teles, falou, para um grupo de amigos, das suas aventuras e dos caminhos que trilhou. Dos tempos difíceis.
Antes, levantou e rodou ligeiramente a gorra que sempre trouxe. Sei lá quantas vezes! Nem os dias amenos o faziam destapar a cabeça, senão dentro de casa ou nas saudações às pessoas "respeitáveis".
Depois, lá desembuchou: - «Sabem, nesta nossa terra, neste nosso país, nas décadas de quarenta, cinquenta, sessenta..., onde os pobres viviam com evidentes sacrifícios, onde os árduos trabalhos lhes estavam destinados, também eu comi o pão que o diabo amassou. Corri o mar e a marinha à cata dessa coisa que é viver. A juventude de hoje não faz a mínima ideia do sofrimento da maioria das pessoas desse tempo».
Lembra-se de ir à escola, de conhecer as letras do alfabeto, mas não suficiente para ter aprendido a ler.
A memória não lhe chegava, sequer, para precisar a idade que tinha quando foi trabalhar: treze, catorze anos..., talvez.
Educado nos valores tradicionais - seu pai trabalhava a pedra como ninguém -, "empurraram-no" para outra actividade correlativa: ainda menino entrou para mineiro. Aqui e ali, biscates de pedreiro ou calceteiro. Mas sobretudo mineiro.
De farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e a ferramenta na outra, os picos logo lhe ocuparam o tempo como aprendiz, escavando metro após metro, numa vida inteira feita de risco e de força..., risco que fazia parte do seu dia a dia. Trabalhava descalço sob o lodo e pedras afiadas, até sol posto. O ofício exigia experiência e lucidez, caso contrário podia ficar soterrado. A alguns nem Santa Bárbara lhes valeu. Outros ficaram com sequelas irreversíveis, sobretudo nos pulmões.
É que por aqui pouco mais havia. Nem todos podiam ir laborar para a "Fábrica Grande" ou do "Calvário".
Mas foi assim que começaram a "entrar" em casa alguns tostões. Numa família com muitos filhos toda a ajuda era pouca. Os poços matavam, é verdade, mas também davam de comer.
A morte inesperada do pai foi um rude golpe para o "nosso" Joaquim, abruptamente desligado da pessoa de quem dependia emocionalmente. Sobrava-lhe o apego tão intenso à mãe. Sempre solteiro, será que alguma vez namorou?
Os anos foram passando sem nunca ter diminuído o ritmo de trabalho, sem vacilar às armadilhas do tempo. Mas a vida, tantas vezes injusta, pregou-lhe uma partida, deixando-o quase cego. Porém, só tarde, a conselho médico, fora afastado do ambiente sórdido, duro, doentio, onde passava o tempo e a saúde se lhe esvaía.
Elogiar as capacidades cívicas e humanas de Quim "Loreira" não é difícil. Nos olhos, nunca lhe vislumbrámos lágrimas de tempos dolorosos. Era alguém que gostava de viver, um indivíduo alegre, bem disposto. Era alguém profundamente contagiante. Não havia conterrâneo que o desprezasse.
Bairrista dos sete costados, inteligente, de fino humor, com "veia" de artista, Quim "Loreira" sabia, mesmo sem "letras", usando a ironia, analisar a sociedade, retratar muito bem Freamunde e os seus "agentes" da segunda metade do século XX.
Empenhado também em manter o seu apelido nas bocas do mundo, assinou momentos inesquecíveis, chegando mesmo, em momento de inspiração, a gravar todo o seu vasto "repertório".


 
Música - sem que tocasse qualquer instrumento ou integrasse a filarmónica, cantava o fado por excelência, com "arranjos" da sua autoria - e poesia, declamada a preceito, eram assunto sobre o qual Quim "Loreira" não se fazia rogado.
Deixou-nos "matéria", o que é estimulante.
De temperamento tímido, libertava-se com o "copito", raras vezes em demasia, sem provocar desacatos, sem desbaratar na taberna e no vício do tabaco, que estragavam a saúde e prejudicavam a família.
Quando morreu, o funeral foi concorridíssimo e deu para ver quanto o estimavam.
Jaz no cemitério nº 2 de Freamunde, Terra que ele amou e exaltou como ninguém.
Com o desaparecimento de Quim "Loreira", morreu um pouco do nosso torrão, foi-se uma das suas matrizes mais puras e originais. Um ramo da "nossa" palmeira.
A melhor homenagem será lembrá-lo de vez em quando. Uma das razões para o esquecimento é, quase sempre, a fraca memória das nossas gentes, o estrato social (não era rico, pelo contrário), e a "tendência" para a ingratidão.
Deixou saudades, o QUIM "LOREIRA".
 
Orgulhe-se a Gandarela,
orgulhe-se a terra inteira:
a sua filha mais bela
deu à luz o Quim Loreira.
 
Pela mão dos sardinheiros,
sob sorrisos e abraços,
junto à Fonte dos Moleiros,
deu os seus primeiros passos.
 
E depois subiu à Feira
perdeu-se pela palmeira,
do fundo do coração.
 
e pela festa da vila
é por aqui que ele asila,
p´ra lhe fazer um sermão.
 
                                        Rodela
 

 
 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

CORONEL BARREIROS

CORONEL BARREIROS
 
(10-8-1893 / 23-8-1965)
 
 


 
 
De nome próprio: José Baptista Barreiros.
Do enlace com D. Maria da Conceição Alves da Cruz (irmã, entre outros, de Dr. Alberto e Arnaldo Cruz), da Casa da Igreja, Freamunde, resultou o nascimento de duas filhas: Maria Elvira e Maria Cristina.
Muito novo, frequentou as Faculdades de Ciências (Matemática) e Direito, em Coimbra, e tirou o curso superior da Escola de Guerra (1916/1917).
De uma crónica assinada por A.M., de Braga - pessoa autorizada e com conhecimento de fontes capazes de melhor ficarmos a conhecer a personalidade do distinto Coronel, de talhe bem militar, metódica, calma, distinta, e arrumada na interpretação dos factos históricos a que por muito tempo ligou seu nome em ribalta de grande responsabilidade deixada por Rocha Martins -, e publicada no jornal regionalista "Gazeta de Paços de Ferreira", alguns respigos, como preito de admiração e gratidão a tão ilustre figura, que dispensou a Freamunde larga predilecção:
« (...) Os lugares que exerceu em Braga, onde fez uma grande parte da sua carreira militar, alguns por mero acidente, como os de presidente da Junta Distrital, pouco interessam para a compreensão da sua figura, que era estruturalmente a de um patriota, a de um republicano e a de liberal, embora, por vezes, circunstâncias fortuitas o houvessem aparentemente desviado do caminho de uma plena afirmação de princípios e atitudes.
Tinha, porém, um pronunciado sentido do dever e da capacidade de servir e assim, posto que afastado, por convicção, das actividades políticas directas desde 1926 (era então comandante da P.S.P. do distrito), nunca recusou a sua colaboração, mostrando maior ou menor entusiasmo, em benefício dos valores morais e culturais do povo e da Pátria através da defesa e da proclamação dos seus direitos tanto na sua própria conduta pessoal como nos seus trabalhos de pesquisador e de ressuscitador de velhos textos, em que bebia a força alentadora do seu testemunho de português consciente.
Após a sua passagem à reserva, em 1953, consagrou-se apaixonadamente com devoção e persistência, a uma fecunda tarefa de historiógrafo positivista, escrevendo magníficos ensaios e elucidativas crónicas sobre relevantes acontecimentos e vultos nacionais.
Possuía aptidões natas de investigador, um raciocínio claro, um sólido bom senso, uma lucidez penetrante no comentário, um critério esclarecido, uma segura prudência no avançar julgamentos e no extrair conclusões, uma prosa correntia de expositor, uma larga soma de conhecimentos especializados, um arreigado gosto pelas coisas singelas ou fabulosas do passado.
(...) Não deixou uma obra de envergadura, susceptível de traduzir o conjunto dos seus méritos e das suas possibilidades, decerto porque o não permitiram as limitações da sua existência. Em todo o caso coligiu subsídios e exumou documentos de real importância.
 
Premiado diversas vezes pelos seus trabalhos publicados na "Revista Militar", onde assiduamente colaborou, o coronel Barreiros, que também foi professor nos Altos Estudos Militares, era um técnico abalizado, com a excepcional competência de quem ocupa jubilosamente um lugar para cumprir uma missão em favor da grei: filho do povo, rendeu sempre a sua homenagem ao povo, com inalterável respeito.
Foi episódico o seu trânsito pela Santa Casa da Misericórdia - aí quis também por inteiro colocar-se ao lado do povo, mas acabou por renunciar ante um mundo de dificuldades e de inibições a que o seu temperamento e a sua educação de militar não se adaptavam de ânimo leve - e a sua presidência na Junta Distrital, quase desde logo assinalada pela doença, não lhe deu oportunidades, por tão curta, de empreender um novo programa de realizações.
Mas a sua acção de patriota, livre de compromissos, à frente da delegação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, cuja criação e desenvolvimento quase exclusivamente se lhe devem, conquistaram-lhe um prestígio tangível, sem benevolências nem convencionalismos, que se prolongou até final».
Foi de sua iniciativa a compra do Palácio dos Biscainhos para instalação do Museu de História, Arte e Etnografia, a promoção de Feiras, Exposições, Congressos, manifestações de carácter patriótico para comemorar datas nacionais.
Destaque para as condecorações de Comendador de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis e a Medalha de Mérito Militar.
A notícia do seu súbdito desaparecimento, calou fundo no sentimento de todos os habitantes da Vila de Freamunde, já escassa de valores.
Esta Terra, concelho incluído, mereceu-lhe sempre um carinho especial, sendo alvo de vários e aprofundados estudos.
Deve-se-lhe a monografia de Freamunde, de alto valor histórico.
 
 
 
Em edição da Associação de Socorros Mútuos Freamundense foi publicada, em 1957, uma comunicação da sua autoria, apresentada ao Colóquio Bracarense de Estudos Suévicos Bizantinos, sob o título "Uma povoação Suévica da Chã de Ferreira - A Vila de Freamunde".
 
"Portugal de ontem e de hoje na sua missão histórica", foi a legenda de uma notável conferência pronunciada em Junho de 1961, na sede daquela Associação de Socorros, a que presidiu o Chefe do Distrito, Brigadeiro Gonçalves da Silva. Este trabalho foi depois editado pela Câmara Municipal.
Em 1957, a direcção do Clube Recreativo propôs sócio benemérito da Colectividade, o coronel Baptista Barreiros, pela valiosa colecção de livros que gentilmente ofereceu (onde param?), para o enriquecimento da Biblioteca, decisão aprovada por unanimidade e aclamação.
É, pois, «altamente gostoso o sentimento que Freamunde, de lés-a-lés, devota ao saudoso coronel José Baptista Barreiros. Adventício da terra, teve por ela amor estranho e por ela queimou muitos dos poucos vagares em busca de elementos para a história de Freamunde».
Em 1983, por alturas das comemorações da elevação de Freamunde a Vila (Cinquentenário), o seu nome ficou eternizado em placa toponímica: Rua do Coronel Barreiros (da Rua D. Mercedes Barros à Rua Brigadeiro Alves de Sousa).
 
 
 
 
 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOM ANTÓNIO TAIPA
 
BODAS DE OURO SACERDOTAIS



 
 
...E tudo começou assim:
...Desde pequenino que falava que ia ser padre, contra a vontade do meu pai que tinha uma alfaiataria e precisava do auxílio do filho para que o negócio tivesse continuidade. Os estudos ficariam, pois, para trás. Escapadelas?!... Só para o "pontapé na bola", nem que chovesse! - recordou a irmã, Maria Ângela, ideia corroborada por Vitorino Ribeiro, amigo de infância de António Taipa.

António Maria Bessa Taipa; Maria Olívia Bessa Gomes (Mãe); Maria Ângela B. Taipa (Irmã); Daniel Oliveira Taipa (Pai)

 
Mas o "caminho" estava traçado: concluído o exame de admissão, passou a frequentar, entre 1954 e 1966, os seminários diocesanos de Ermesinde, Trancoso, Vilar e Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, onde cursou filosofia e teologia.
A ordenação sacerdotal, foi-lhe conferida no dia 15 de Agosto de 1966 na Sé Catedral do Porto por D. Florentino Andrade e Silva 
 
MISSA NOVA:
«Pelas 11,00 hrs do dia 21 de Agosto de 1966, com a Igreja Matriz de Freamunde repleta, começou a missa celebrada pelo neo-presbítero, acolitado pelo pároco local, José Augusto Sousa, e por dois condiscípulos e amigos, estando a parte coral a cargo de um grupo de seminaristas e de jovens freamundenses. A homilia foi da responsabilidade do Rev. Alves Dias que enalteceu as grandezas do sacerdócio, e às lavandas serviram o pai do novo sacerdote, Daniel de Oliveira Taipa, e seu avô materno, Joaquim de Bessa Ribeiro.



 
Terminada a cerimónia do beija-mão, organizou-se um cortejo, abrilhantado pela Banda de Música local, em direcção à propriedade de D. Glória Vieira e irmãs, onde foi servido o almoço a cerca de duas centenas de pessoas.





 
Na altura própria, brindaram pela felicidade do novo sacerdote, o Rev. Alves Dias, o pároco local, um seu antigo condiscípulo, o Rev. Domingos Moreira, José Maria Pinto de Almeida e o Dr. João Neto.
Lidos diversos telegramas de felicitações, encerrou a série de brindes o Rev. António Maria de Bessa Taipa que, emocionado e reconhecido, agradeceu todas as provas de amizade e estímulo».
Rev. António Taipa ladeado pelos pais

Rev. António Taipa ladeado pelas irmãs Maria Ângela e Gracinda
 
Já ordenado presbítero, entra no Seminário do Paraíso, na Foz, como prefeito e professor.
No ano seguinte vai estudar para a Universidade Gregoriana, na cidade de Roma, Itália, onde faz a licenciatura em Teologia Dogmática e no Pontifício Instituto Bíblico a licenciatura em Sagrada Família.
Já com o ilustre e carismático Bispo D. António Ferreira Gomes no "governo" da Diocese do Porto, é nomeado, em Outubro de 1972, prefeito e professor de Sagrada Escritura e Teologia Dogmática do Seminário Maior, mais tarde Instituto de Ciências Humanas e Teológicas (ICHT).
A partir de 1987 torna-se docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

ORDENAÇÃO EPISCOPAL:






Na tarde do dia 18 de Abril de 1999, os sinos da Sé Catedral repicaram em anúncio da ordenação episcopal do Bispo auxiliar do Porto, D. António Maria Bessa Taipa, tendo sido Bispos ordenantes D. Armindo Lopes Coelho, D. Júlio Tavares Rebimbas e D. João Miranda Teixeira (Significativa a presença das Igrejas Irmãs Lusitana, Anglicana, Metodista e Luterana alemã, em sinal da unidade de Missão que cada vez mais se assume e, em momentos mais significativos, também se exprime). Ordenação que juntou, também, dezenas de sacerdotes, bispos, seminaristas,  autoridades civis, familiares e muitos freamundenses. A sentida ambição materializava-se em realidade.


Nomeado pelo Papa João Paulo II, a 22 de Fevereiro, o "dilecto filho" do clero portuense recebeu a difícil tarefa da pregação do Evangelho, de impedir a degradação da religiosidade, levando a palavra de Deus até aqueles que experimentam o "pesadelo do sonambolismo".
O homem de gostos simples, filho de Freamunde, terra que o viu nascer a 11 de Novembro de 1942, aceitou, de joelhos, a antiga missão dos apóstolos que lhe confiaram, enunciando a sua felicidade:
«... Sinto, de um lado, o sentimento da fraqueza, da limitação, da incapacidade radical diante da missão que me é confiada; do outro lado, a certeza da fé que é o Senhor que me chama e de que nada me faltará. Por isso, lhe agradeço por ter querido servir-se de mim para o seu instrumento na sua obra de salvação dos homens. Feito bispo para o meu povo, sinto e vivo esta consciência: que me devo também à comunidade onde nasci e cresci, à comunidade onde Deus me encontrou. E penso na minha família. Uma família grande, simples e pobre, mas rica de uma felicidade que só o Senhor conhece» - Excertos do "Jornal de Noticias" que noticiou, assim, o acontecimento, enchendo as páginas interiores na edição do dia seguinte. Mas não só.

"Voz Portucalense":
«..."Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho" - foi a proclamação mais forte na celebração episcopal de D. António Maria, bispo auxiliar do Porto, na Sé.
Apresentado por dois presbíteros, os padres Jorge Cunha e Manuel Mota, do Seminário Maior, D. António Maria fez a sua confissão de Fé e promessa de obediência pastoral, prostrando-se depois por terra enquanto se cantavam as ladainhas dos Santos. Realizou-se depois a imposição das mãos, oração de Ordenação, unção com o Santo Crisma e a entrega do Evangeliário. Foi-lhe entregue depois o anel, a mitra e o báculo, sinais da Missão em que é investido.
O canto do Coro, com Orgãos e Metais, e o profundo significado desta acção litúrgica penetraram de tal modo as pessoas que se criou um ambiente marcante e cheio de interioridade».


 "Comércio do Porto":
«... Não esquecendo a comunidade onde nasceu e cresceu, a família, os párocos e catequistas que o introduziram nos ministérios da Fé ou a "Igreja do Porto", D. António Taipa teve uma palavra especial para D. António Ferreira Gomes, que o admitiu ao seminário, D. Floriano, que o ordenou presbítero, e D. Júlio Tavares Rebimbas, com quem trabalhou seguidamente.
Mas a menção especial foi, sem dúvida, para o seminário e os seminaristas, "alavanca na minha esperança e na minha fé nesta nossa querida Igreja"».

"Gazeta de Paços de Ferreira":
«... O templo (Sé Catedral do Porto) tornou-se pequeno para acolher centenas de amigos de D. António, principalmente da vila de Freamunde, estando a Câmara Municipal representada pelo seu presidente, Prof. Arménio Pereira».

"Imediato":
«...Foi de emoção a cerimónia de ordenação de D. António, em especial para todos aqueles que de Freamunde, e não só, se deslocaram à Sé do Porto.
Em carta de nomeação, em 22 de Fevereiro, João Paulo II termina dizendo: "Nesta hora, recomendamos-te, dilecto filho, que confies todo o teu empenhamento a Cristo que inaugurou o reino dos céus na terra e nos revelou os mistérios divinos"».

"Tribuna Pacense":
«... A Diocese do Porto acaba de ser enriquecida, com a nomeação do novo bispo auxiliar - D. António Maria Taipa.
Motivo de rejúbilo para as nossas gentes, o facto de ser oriundo (Freamunde) destas Terras de Ferreira».

"TVS - Terras do Vale do Sousa":
«... É de Freamunde o novo Bispo Auxiliar do Porto. A alegria de uma freguesia que nunca teve um bispo foi materializada».




"FREAMUNDE RECEBEU O SEU BISPO EM CLIMA DE FESTA "

No dia 24 de Abril de 1999, Sábado, Freamunde "viveu um dia de alegria e orgulho incontido".
"Ele é nosso! É de Freamunde". Era o sentimento generalizado na população que viu nascer e crescer o seu "menino querido" António Maria Bessa Taipa.
Antes do jantar/festa, organizado por uma comissão liderada pelo pároco local, Rev. Arnaldo Meireles, aconteceu o momento de maior simbolismo: o cónego António Taipa, já como Bispo Auxiliar do Porto, celebrou uma eucaristia, no "Pavilhão das Sebastianas", repleto de fiéis, cerimónia abrilhantada por um grupo coral dirigido pelo diácono Pedro.
No termo da eucaristia representantes da Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Colectividades desportivas e recreativas da terra, ofertaram a D. António várias lembranças.
A homenagem terminou com um jantar/convívio, no salão da "Carfel", espaço gentilmente cedido pelo seu sócio-gerente, Carlos Felgueiras, onde marcaram presença cerca de 400 pessoas. O reconhecimento público da paróquia e do orgulho dos freamundenses pelo filho da terra, simples, sabedor, piedoso e prudente, a quem foi entregue um báculo, bordão utilizado nas cerimónias litúrgicas como sinal da jurisdição dos bispos.
Foi uma "Festa" de emoção. Como emotivos e comoventes foram os agradecimentos de D. António nas palavras finais.



"JUBILEU SACERDOTAL"

Dom António celebra hoje, 15 de Agosto de 2016, o Jubileu de 50 anos de ordenação presbiterial.
A efeméride é assinalada com a celebração da Eucaristia, às 18,00 horas, na Igreja Matriz de Freamunde, que contará com a presença de entidades eclesiásticas, civis e militares, amigos e fiéis.
A celebração Eucarística é organizada pelo "Deo Gracias Coro Litúrgico", elementos de outros coros existentes na paróquia de Freamunde e a colaboração da Associação Musical de Freamunde.

PARABÉNS, D. ANTÓNIO
PARABÉNS, FREAMUNDE











 
 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO NASCEU HÁ 150 ANOS

ANTÓNIO JOSÉ DE BRITO
(9-8-1866 / 24-2-1951)



Natural de Santo André de Cristelos-Lousada, filho de Gaspar António de Brito, mestre pedreiro, oriundo de Aboim, aldeiazinha pertencente ao concelho de Arcos de Valdevez, e Ana Joaquina de Bessa, costureira, da referida freguesia de Santo André de Cristelos, "cresceu" profissionalmente no seio de uma família de comerciantes de Penafiel, gente que o ensinou a ser honesto, e, contagiado e incentivado pelo "patrão", comerciante se tornou.
Adolescente cheio de esperança (os ventos pareciam-lhe de feição), subiu São João de Covas e deparou-se-lhe uma terra interessante. Em Freamunde não procurou emprego: estabeleceu-se. A "Casa" António José de Brito, sediada na rua que viria a chamar-se "do Comércio", voltada para a venda de qualquer tipo de ferragens e materiais para o ramo da construção civil, abriu as suas portas à freguesia no dia 11 de Março de 1888.




Dinâmico, seguro, de ar maduro e confiante, iria tornar-se num bem sucedido homem de negócios. Mas não só. De visão prática, pugnava pelo progresso da terra que o havia adoptado. Depositário da caixa do correio, incumbiu-se gratuitamente nas diligências e esclarecimentos necessários à instalação de uma estação postal em Freamunde.
Católico praticante, foi, em Outubro de 1896, nomeado tesoureiro da Confraria de Nossa Senhora das Neves, sendo principal responsável pela reforma de pintura e douramento do altar da dita Confraria.
Cedo se embeiçou por uma menina prendada, de sua graça Henriqueta (Moreira Dias Cardoso da Costa), filha de António da Costa Gomes e Joaquina Moreira Dias Cardoso. Do namoro ao matrimónio (13-10-1889) foi um passo. Os filhos, em número de dez, não se fizeram esperar: Arnaldo, Vitorino, Alexandrino, Alzira, Ernesto, Jaime, Alberto, António, Ernestina e Cassilda.


Henriqueta M. D. C. Costa e António José de Brito

O agregado desfrutava do conforto da classe média, auferindo rendimento sólido. Era feliz.
A par da sua actividade comercial, António José de Brito cedo foi atraído pelo poder autárquico, mas não a qualquer preço. Já em 1895 se havia envolvido nestes meandros, tendo sido eleito membro efectivo da Comissão de Recenseamento Eleitoral.
"Militante" político com um claro compromisso com as forças mais conservadoras, tornou-se, em 1897, importante e influente líder dos Regeneradores de Freamunde.
De 1902 a 1907, aí o tínhamos como vereador municipal, na presidência do Dr. Luís Alves Pinheiro Torres, ao lado do Padre António Ferreira de Carvalho (Ferreira) e Júlio Alves Carneiro (Seroa).


António José de Brito: 3º da 2ª fila a contar de baixo da direita para a esquerda


Combatente, desde a primeira hora, contra a macrocefalia da sede do concelho, tudo fez para libertar a terra das amarras da subalternidade autárquica.
Mas... com o poder centralizado (Paços de Ferreira) e hostil às necessidades prementes da "sua" terra (Por exemplo, foi a gente bairrista de Freamunde que, por um espaço de três anos, com início em 1907, através de donativos oferecidos à Junta, proporcionou a colocação e sustentação de 24 candeeiros a gás de acetileno nas ruas mais centrais, melhoramento que se tornou importantíssimo), sentindo perdida mais uma batalha, mesmo aceitando o compromisso de, para ali destacado, garantir o escrupuloso cumprimento da vontade da "maioria" da edilidade, decepcionado com as suas ambições, aproveitou o decreto-lei do ministro João Franco, que dissolvia todas as vereações, substituindo os seus membros (Não precisou, pois, de renunciar, em 1908, à Comissão Administrativa Municipal), integrando, como vogal, a Comissão Administrativa da Junta da Paróquia de Freamunde até 1910.
É que, a obra política, exígua que fosse, por ele orientada ou influenciada nesta terra, tinha sido antes produto do sentimento e da vontade de freamundense bairrista, como António José de Brito era, que resultado de um esforço consciente dos colegas do executivo.
Desiludido, inerte e conformado, isolou-se da actividade política após a revolução do 5 de Outubro de 1910, que proclamou a República e fez cair a Monarquia. Ainda integrou a facção das primeiras figuras da oposição ao novo regime, fruto da sua consciência política, sendo um dos nomes apontados como suspeito de ter participado na rebelião de 19 de Setembro de 1911. A alma ficou ferida. Deve ter doído.
Não podemos, contudo, agora que o percebemos melhor depois de algum trabalho de recolha documental, acusá-lo de falta de honestidade, de cobardia ou ausência de valores. Valores que se elevavam em todos os seus comportamentos sempre que Freamunde estava em causa. Havia notória solidariedade entre os honrados e bairristas cidadãos desta terra, assíduos nos mais importantes acontecimentos dessa época.
Questiúnculas partidárias à parte, não se estranhe, pois, encontrá-lo como Juiz das Festas em Honra ao Mártir S. Sebastião no ano de 1911 (em 1909 já havia sido vogal da comissão promotora das mesmas festividades) e membro efectivo, em todos os cargos, até na comissão revisora dos Estatutos da benemérita Associação de Socorros Mútuos (foi seu sócio fundador), desde 1890 até à data da sua morte (1951). Por justiça, foi a sua fotografia colocada e descerrada na galeria daquela Instituição, na habitual sessão solene do 19 de Março, corria o ano de 1928, pelo Dr. Alberto Cruz.
Desaparecido da ribalta política, já tinha, no entanto, provado o seu "ópio" e por mais que tentasse nunca mais se livraria dele.
Bastou o golpe do 28 de Maio de 1926, que instalou um regime mais de acordo com o seu pendor político, para o termos de novo, de 1927 a 1938, no seio de cinco vereações, presididas pelo Dr. José de Lencastre.


1927 - C.A. da Câmara Municipal: António José de Brito; Manuel dos Santos Carneiro Leão; Dr. José de Lencastre e Joaquim Monteiro Filho
De permeio, fruto do seu altruísmo, membro destacado, em 1928, da Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde e Vice Presidente da referida Associação Humanitária nos anos de 1930 e 1931.
Por uns tempos reintegrou-se na luta pelo progresso e bem estar dos freamundenses. Com o apoio incondicional, e enorme dedicação, dos elementos da Junta de Freguesia (Abílio Pacheco de Barros, Arnaldo da Costa Brito e Armando Nunes de Oliveira), a importância política, junto das altas esferas governamentais, do Dr. Alberto Cruz e, sobretudo, do Tenente Carlos Luciano Alves de Sousa, Administrador do Concelho, Freamunde conhece um maior desenvolvimento com as inaugurações de duas escolas primárias (1931 e 1938), uma cabine telefónica, fontanários, lavadouros, coreto, abertura e reparação de arruamentos... Em 1933, Freamunde é elevada à categoria de Vila, acontecimento histórico e que fez transbordar de alegria os orgulhosos freamundenses.
Depois, regressou o ostracismo. A terra voltou a parar de uma forma confrangedora. Em 20 de Outubro de 1938, António José de Brito, personalidade acima de qualquer suspeita, sendo mesmo tido como incorruptível, sequer subserviente, eventualmente marginalizado e sem poder decisório, pede licença e é substituído na vereação por António Afonso da Silva.
António José de Brito chegava ao fim de vários mandatos sem a imagem desgastada.


Anos 50: "Casa Brito", à direita".
 
Faleceu, serenamente, no dia 24 de Fevereiro de 1951, com 84 anos de idade, um dos "Homens" de grande influência para Freamunde durante meio século.
O seu nome ficou perpetuado em placa toponímica, numa merecida e justa decisão da comissão executiva das comemorações do cinquentenário da Vila de Freamunde: Largo António José de Brito (no Alto da Feira, desde a Rua Abílio Barros à rampa para a Associação de Socorros Mútuos). 


Lápide descerrada pelo filho, Arnaldo Brito





quinta-feira, 4 de agosto de 2016

"ZÉZINHO DA CASIMIRA"

JOSÉ PINTO PEREIRA GOMES "ZÉZINHO DA CASIMIRA"

(4-8-1870/16-9-1942)



Filho de Joaquim Pereira Gomes e de Joaquina Pinto, casou, no dia 1 de Novembro de 1896, às 6 horas da manhã, na Igreja Matriz de Freamunde, com Carolina da Costa e Sousa, sendo celebrante o Pároco Maximino Ferreira Alves.
Testemunharam, Manuel Augusto Pinto de Barros, farmacêutico, do lugar da Feira, e António Ferreira Alves, estudante, do lugar de Freamunde de Cima.


Carolina da Costa e Sousa e José Pinto Pereira Gomes "Zézinho da Casimira"

O casal ocupou, primeiramente, uma casa emprestada por Bernardo Ferreira, em S. Sebastião, e por esses lados ficou.
Do matrimónio resultou o nascimento de 7 filhos: Helena, Zulmira, Joaquim, Julieta, José da Conceição, Augusto e Horácio, todos presentemente falecidos.


Augusto (filho); Julieta (filha); Carolina (mulher); " ZÉZINHO DA CASIMIRA"; Hermínio (neto); Horácio (filho)

Freamundense autêntico, possuído de paixão, espalhou tantos pormenores sobre a sua vida que, hoje, é perfeitamente possível estabelecer uma pequena biografia.
Terna e carinhosamente conhecido por "Zézinho da Casimira" - sua avó, onde foi criado, chamava-se Casimira -, era um homem de ideias, de carácter jovial, simplório e humilde, leal para os seus amigos e generoso para aqueles que encontrava com problemas. Uma alma nobre.
Para além de proprietário, sem ser capitalista, à actividade de comerciante alia novas e sucessivas ocupações, sem nunca dar sinais de dissabores e cansaço. Chegou mesmo a ser ajudante escriturário dos tabeliões Alexandrino Chaves Velho e Dr. Costa Eiras.


Fotografia tirada no início do século XX. Fila de baixo: ZÉZINHO DA CASIMIRA, o 2º a contar da esquerda

Ganha o gosto de ler e devora todo o livro que lhe cai nas mãos. Não era dos que fugia dos compêndios como o diabo da cruz. Pelo contrário. As suas estantes passaram a intercalar autores clássicos com outros mais contemporâneos. Quando os "reais" lhe sobravam, comprava livros.
Foi a leitura quem o pôs pouco a pouco em contacto com o teatro, primeiro, e com o ensino particular, depois. A muitos rapazinhos que o procuravam, numa altura em que o analfabetismo grassava, ensinou as primeiras letras, abnegada e desinteressadamente, no palheiro de cereais do caseiro, ou, quando o tempo o permitia, na eira, no então lugar da Lage, ali pr'ós lados de S. Sebastião, quem vai para Freamunde de Cima.
Foi assim que preparou para exames de instrução primária do 1º grau, em meados dos anos vinte, dezenas de instruendos - o que o transformava numa autêntica instituição de utilidade pública -, conforme me elucidou Alfredo de Matos "Cherina", seu ex-aluno, colega de João "Catano", Zeca Pedra, Alberto Pinto... Já antes, ainda no período monárquico, tinham passado pelas suas mãos muitos jovens, alguns referenciados: Albino R. C. Machado, Ilídio Correia da Fonseca, Joaquim de Sousa Mendes, João Pereira, Felisbina da Costa Seixal (sua afilhada, por sinal)... É verdade, uma menina, numa época em que pouquíssimas crianças do sexo feminino frequentavam o ensino.
Estreou-se como ensaiador da arte de Talma, em 1908, à frente da "Troupe Artística Dramática Freamundense", levando à cena alguns Autos, de cariz essencialmente popular.
Volta à actividade teatral, em 1914, oferendo ao público interessado hilariantes comédias. Pôs, assim, à prova todos os seus recursos criativos, imaginativos e com uma entrega total.
Homem simples, do povo, foi com simplicidade que realizou o seu trabalho, sentido, apaixonado, com sinceridade e respeito.
Mas, além dos atributos de homem culto, Zézinho era, sobretudo, um cidadão exemplar, uma personalidade íntegra.
Com ele muitos aprenderam a sabedoria das coisas simples e naturais.
Tornou-se rapidamente uma figura de interesse local pela imagem que criou na comunidade.




Nas festas que se faziam nessas épocas, na freguesia de Freamunde, em honra ao Mártir S. Sebastião, Menino de Deus, Sagrado Coração de Jesus, Senhora da Hora, S. Tiago, S. José, Santo António, Divino Salvador, Senhora da Conceição, Santa Luzia..., o seu contributo era indispensável.
Extremamente habilidoso - nos tempos livres, trabalhava, com uma pequena serra manual, a madeira como ninguém, conseguindo pequenos brinquedos em miniatura, de várias formas e feitios (roletas, rapas, piões, carrinhos...), que amavelmente oferecia às crianças mais carentes pela quadra natalícia -, eram dele as cascatas, dum gosto desusado, que se faziam, quase sempre, junto à casa das "Elvirinhas". Zézinho era um cascateiro emérito. Um pequeno génio inventivo. Das suas mãos surgiam maravilhas em forma de figuras.
Bairrista de gema, serviu com denodo várias colectividades e instituições locais. Em 30 de Novembro de 1890, foi um dos elementos que compôs o grupo de cidadãos que convidaram a freguesia para a reunião efectuada na moradia de Albino Augusto da Costa Torres, em S. Francisco, tendo em vista a criação da Associação de Socorros Mútuos Freamundense. Nomeada a comissão, fez parte da mesma.
Durante, aproximadamente, 30 anos, destacou-se como elemento activo nos diversos orgãos sociais da referida benemérita Associação.


Associação Socorros Mútuos Freamundense


Foi, também, um dos fundadores da Assembleia Freamundense.
Cidadão que não se sujeitava à humilhação nem alugava consciências, revelou-se, na política, propagandista republicano, integrando, em 1895, a 1ª Comissão Municipal Republicana do Concelho, liderada pelo Dr. Leão de Meireles.
Na Junta de Freguesia, serviu vários mandatos como tesoureiro e vogal, sendo nomeado secretário/escrivão da mesma de 1927 a 1941.
Este simpático e empenhado bairrista, faleceu no dia 16 de Setembro de 1942, com 72 anos de idade, no estado de viúvo desde 3 de Dezembro de 1933, no edifício da Ordem Terceira de S. Francisco, Freamunde, onde residia sua nora Carolina Marques da Costa.




O funeral, onde se incorporaram dezenas e dezenas de freamundenses, traduziu-se numa cerimónia simples, como ele gostaria; discreta, como discreto ele soube ser em vida; sentida como a sua rara sensibilidade exigia.
O "Homem" que só pensava estar ao serviço dos entes queridos, da terra que o viu nascer, dos desprotegidos, mesmo depois de morto surpreendeu. No seu testamento deixou expresso que grande parte das suas economias, fossem distribuídas pelos indigentes da freguesia.
Em 1983, por altura das comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, o seu nome ficou perpectuado em placa toponímica: Rua Zézinho da Casimira (Começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa; Acaba na Rua Pintor Santa Marta).


Descerramento de placa toponímica pelo neto, Hermínio Pinto