sábado, 15 de abril de 2017

"ZECA MIRRA"

JOSÉ MONTEIRO DOS SANTOS "ZECA MIRRA"

(4-1-1926 / 15-4-2012)




Filho de Joaquim dos Santos e Emília Monteiro, família simples, gente que o ensinou a ser honesto, contraiu matrimónio com uma conterrânea, de sua graça Esmeraldina (Ribeiro de Meireles), corria o ano de 1948 (23/5). Do enlace, resultou o nascimento de quatro meninas, quatro Marias: Maria Cândida, Maria José, Maria Luísa e Maria Fernanda, criadas como pessoas de bem, honradas e persistentes.
Discreto, educado, contido, nada exuberante, também conservador de humildades, foi desta forma que eu conheci o senhor José ("Zeca Mirra" para gente das suas relações).
Após o desaparecimento físico, já lá vão cinco anos, é de inteira justiça e gratidão relembrar o desportista de eleição, um dos mais virtuosos futebolistas de sempre do clube do "Carvalhal", na posição de defesa central, e o treinador que lançou a sementeira na área da formação.
Despontou cedo para o futebol. O vírus, alastrado mais tarde aos manos Alberto, Jaime, Luís e Baltazar, foi-lhe incutido aos 16 anos, na faixa etária dos talentos precoces, competindo um ano depois, num período em que só existia a equipa de honra. Estávamos na época de 42/43.



 Fedra Santos



OS MIRRAS

Os Mirras, no futebol,
Da Terra que os viu nascer,
Foram a água, sal e sol
Do motor que os faz mover

O Zeca, o Luís e o Alberto
Mais o Jaime e o Baltazar
Deixavam sempre por perto
Quem os tentasse passar.

Rara era a fortaleza
Que batia tal defesa
Muito menos a de Paços.

Que enquanto os Mirras duraram
Nunca eles se gabaram
De lhes ter vergado os laços.

Rodela


A primeira vez que pisou um campo da bola com a camisola azul do então Freamunde Sport Clube vestida, foi em Lagoas, aqui bem perto, portanto. Curiosamente, usou umas botas de travessas saídas duns velhos sapatos domingueiros, verdadeira obra de arte, fruto da habilidade do carismático sapateiro, com pequeno aposento na Praça, António Ribeiro "Filipe". Botas que "poupou" até não lhe caberem nos pés.


1944/1945 - Em cima: Maximino "da Couta", Maximino "Frita", Alberto Matos, Belmiro "da Riqueta", Zeca "Mirra", Casimiro "Vaidoso"
Em baixo: Leonel, João Taipa, Américo, Adão Viana, Joaquim Pinto "Maneta"


1945/1946 - Em cima: Salvador "Pataco", Zeca "Mirra", Hercílio Valente, Belmiro "da Riqueta", João Taipa, José Maria "da Couta"
Em baixo: Leonel, António "Pataco", Alberto Matos, Adão Viana, Joaquim Pinto "Maneta".


1946/1947 - Em cima: Zeca "Mirra", Agostinho Machado "Barroco", Casimiro "Russo", Belmiro "da Riqueta", Quim "Bica", Hercílio Valente
Em baixo: João "Cherina", José Maria "da Couta", Adão Viana, João Taipa, Amaro "da Cavada".

"Zeca Mirra" rapidamente se tornou um líder dentro do campo. Jogador elegante, lúcido, inteligente e com lampejos de génio - verdadeiro símbolo do futebol arte -, durante várias temporadas honrou condignamente as cores do clube do coração. Do seu clube de sempre pois, vítima da relutância de alguns dirigentes de então, viu ser-lhe negada a porta do estrelato... Outros caminhos, muito mais vantajosos em todas as vertentes: promoção desportiva, trabalho bem remunerado, numa altura em que as dificuldades eram imensas e a ocasião era óptima para se afirmar no futebol e melhorar substancialmente a sua situação profissional. Sporting de Braga, Académico do Porto, Académico de Viseu, entre outros, foram fortes pretendentes ao concurso deste interessante jogador.
Sob o comando do saudoso professor Gil Aires, a equipa foi alcunhada de "Argentinos", tão bem jogava a rapaziada, mais fazendo lembrar a célebre formação de São Lorenzo de Almagro que encantou, com o seu virtuosismo, todos os portugueses numa digressão que por cá efectivou.
Quem não se lembra, quem ainda não ouvir falar do onze maravilha! Peixoto, Zeca "Mirra", Alberto "Mirra"; Manuel Pinto, Casimiro "Russo" e Zé Viana; Adão Viana, João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta".


1950/1951 - "Os Argentinos" -  Em cima: Peixoto, Alberto "Mirra", Casimiro "Russo", Zeca "Mirra", Zé Viana, Manuel Pinto
Em baixo: Adão "Viana", João "Cherina", Quim "Bica", João Taipa e José Maria "da Couta"

Arrumadas as botas no final da época de 58/59, temporada histórica pois o S.C. Freamunde conquistou o título de campeão da 2ª Divisão Distrital, em 62/63 ainda apareceu a fazer uma perninha em alguns jogos, retirando-se, agora sim, em definitivo.


1958/1959 - TAÇA DE CAMPEÃO DISTRITAL DA 2ª DIVISÂO DA AF.P.

Passou anos a jogar futebol, sempre respeitando o jogo, os colegas e adversários, os árbitros: a personificação exemplar de um perfil discreto mas sóbrio.
Tempo ainda para acudir (67/68), como técnico principal, numa altura de alguma instabilidade, à equipa sénior do Freamunde. Não caiu nas boas graças de alguns adeptos(?). Era difícil derrubar certos "mitos" nebulosos que o envolviam, principalmente esse de não ser um treinador de... fora.
Apagadas as fogueiras da paixão que na altura se geraram, nem por isso se agastou ou proclamou aos quatro ventos injustiça ou intenção de lesar.
Mas foi na formação, na valorização de jovens atletas, como treinador, desde a longínqua época de 53/54, que Zeca Mirra se tornou lendário. Não custa nada, porque é verdade, lembrar sempre que a sementeira nesta área foi por ele lançada e cujos frutos ainda hoje se estão a comer. Mas não foi fácil impor padrões próprios de organização. Só se treinava uma vez por semana, às Quartas-feiras, depois do "mister" "arrear" da fábrica do Calvário, onde sempre trabalhou até à idade de reforma.
A partir de então, iria o Clube desenvolver, com assinalável sucesso, um laborioso trabalho na área da formação, mobilizando-a e criando uma certa disciplina desportiva.
Técnico de indiscutível competência, pelas suas mãos passou uma imensidão de atletas a quem sempre soube incutir as normas éticas e salutares, fundamentais à formação do jogador e do homem em toda a sua dimensão. Trabalho de "sapa", sem mediatismos.
«Ainda me lembro - reviveu, certo dia, em jeito de conversa - como surgiu o escalão de Juniores no S.C. Freamunde.
Nas redondezas já evoluíam alguns grupos similares. Tal facto fez-me matutar. Era o "bichinho" que já cá residia. Decidi, então, meter pés a caminho. O nosso clube precisava de formar atletas para mais tarde "alimentar" o onze das "Primeiras".
Depois de observar alguns jovens que me apareceram no "Carvalhal", outros que se defrontavam rijamente no tão propalado despique entre as duas facções oriundas das zonas norte e sul desta nossa freguesia - os tais jogos do "pé descalço" -, solicitei ao Toninho Torres a colaboração para a formação de uma equipa e posterior participação em campeonatos oficiais.


JOGOS DO "PÉ DESCALÇO"

Equipa do Norte: Em cima- Fernando "Passareca", Barbosa, Ivo, Augusto Cardoso, Claudino "Mirra", Aníbal Torres
Em baixo: Fernando "Barrigana", Maximino "Candeeiro", Zulmiro, Luís Mirra", Carlos Felgueiras


Equipa do Sul: Em cima - Jaime Rego, Rui "da Praça", Nuno Augusto, Rogério Pereira, Joaquim Lúcio, António M. "Baião"
Em baixo: Júlio, Carlos "Capas negras", Luís Moreira, Humberto, Paulino "Mineira"


O Toninho era possuidor daquela grandeza de alma, tão necessária para o êxito desta iniciativa.
Sempre ao lado da pequenada, com a ternura e dedicação que lhe eram peculiares, pelo seu contributo, pela sua constante disponibilidade, pelo amor, pelo carinho que eternamente nutriu pelos mais novos, foi, mais tarde, carinhosamente apelidado de "Padre Américo".
Feito o recrutamento, tornava-se imperioso a angariação de fundos para a aquisição dos indispensáveis equipamentos: camisolas, calções, meias, botas, bolas...
Tarefa prioritária mas difícil porque os tempos eram de contenção e os "carolas" contavam-se pelos dedos de uma só mão.
Reunimos a "miudagem" e partimos, animadíssimos como nunca, à procura da "massaroca" necessária.
Nas portas onde batemos fomos sempre bem recebidos... e muito encorajados para que o projecto não esmorecesse.
O apuro foi de 520$00. Para a lavagem dos equipamentos os "miúdos" teriam que pedir aos pais a verba mensal de 2$00.


Os ensinamentos de Zeca "Mirra"


Zeca "Mirra" com os primeiros candidatos à futura equipa de Juniores


A inscrição na AFP foi efectuada em devido tempo e a "malta" correspondeu, em absoluto, ao que dela se esperava.
Fomos campeões de série logo no ano de baptismo, levando à loucura os apaixonados da bola.
Era um "toledo" que nem queira saber!
A equipa "arrastava", sistematicamente, centenas de adeptos, mesmo em jogos fora do nosso reduto.
E quis o destino que o primeiro opositor fosse o vizinho e rival Vasco da Gama (hoje F.C. Paços de Ferreira).


1953/1954 - Em cima: Zeca "Mirra" (Treinador), Fernando Valente, Joaquim Andrade "da Raimonda", Jaime "Alegre", Carlos Felgueiras, Barbosa, Ivo, Joaquim Alves "Judas", Zulmiro
Em baixo: Armando, Luís "Mirra", Ribeiro "do Freixo", Humberto, Mário "de Lordelo".

Presenciado por enorme assistência, o jogo, disputado no campo da "Cavada", decorreu equilibrado durante a primeira vintena de minutos, justificando-se o empate a uma bola com que se atingiu o intervalo (os jogos tinham a duração de 60 minutos, divididos em duas partes de 30 minutos). Humberto tinha sido o autor do nosso golo.
Na segunda parte, o domínio do Freamunde foi avassalador, mercê principalmente da sua incontestável superioridade técnica, e o resultado final (2-1 a nosso favor) não surpreendeu.
Mas o jogo mais emocionante foi travado em Santo Tirso, com o grupo local.
O Freamunde não poderia perder, caso contrário seria arredado do primeiro posto.
O campo encontrava-se superlotado. O Maximino "Candeeiro", em grande risota, ainda agora conta este episódio perfeitamente insólito: "...Como não conseguíamos boleia de quem quer que fosse, eu e mais dois colegas fomos "ensanduichados" na mala do carro de praça do Albino "Aniceto". Pois!...Íamos lá agora perder o jogo! Era o que faltava!... E o mais engraçado é que tivemos de pagar parte do gasóleo".
Com uma fantástica exibição, conseguimos a igualdade a uma bola, resultado suficiente para a conquista do título de campeão de série.
No final, foi a "loucura" completa, dentro e fora do rectângulo.


Após o empate com o Tirsense, que garantiu à equipa o 1º lugar da série, Zeca "Mirra" é levado em ombros pelos seus pupilos


De longe, de Moçambique, Gil Aires, sempre Gil Aires, escrevia para a "Gazeta": «BRAVO! - Aos juniores do Sport Clube de Freamunde. Há pequenos nadas na nossa vida que são recordações, bâlsamos, imagens santas na nossa existência. Vós, talvez sem teres medido a extensão do bem que isso representa na nossa vida, conquistastes um desses pontos luminosos, que, anos mais tarde, vos encherá a alma, por momentos, vos dará novas forças para as lutas que ides travar como homens, ao recordá-lo. O vosso brio, as vossas forças, a vossa inspiração, aliados ao saber, que vos transmitiram, conquistaram um triunfo difícil, e mais difícil ainda por ser disputado entre vizinhos, que encheu de alegria o peito dos que vos seguem de perto e lá ao longe. Quantos destes, mesmo sem vos ter visto jogar, ao terem conhecimento do vosso feito, sentiram rolar uma lágrima quente, válvula invisível que, desoprimindo-nos, por influxo, nos traz bem estar celestial.
...Todo aquele que se entrega de alma e coração ao ideal por si sonhado, é um herói, é um eleito. Não sejais ingratos, esquecendo aqueles que vos guiaram nos passos, por vezes amargos, que cobrem as pugnas desportivas. A ingratidão não cabe no peito de um grande atleta».
Mas o grande feito ( o primeiro de muitos em escalões jovens) surgiu na época 64/65. A temporada anterior já prometera: a equipa tinha conseguido disputar uma das séries do Nacional, alcançando, no final, um honroso terceiro lugar, a um só ponto do vencedor, Vitória de Guimarães.



1963/1964 - Em Cima: Zeca "Pequito" (Massagista), Agostinho "Rita", Zeca Peixoto, Orlando "Loreira", Domingos Faria, Albino "Malapeiro", Jacinto, Cunha
Em baixo: Couto, Valentim "Cancela", Abel, Venâncio, Justino.


Uma equipa de PRINCPIANTES, surgida na época anterior, 1962/1963, mas que só "durou" duas temporadas.
EQUIPA DE 1963/1964: Em cima: Justino, Jaime "de Carvalhosa", José Maria Viana, Valente "do Cô", Manuel "Frita", Luís Afonso, Paulino "Cancela", Xico "Folhetas".
Em baixo: João, Alcino "do Cô", António Carneiro, Jorge "Sardinha", Ernesto, Júlio "Guerra".

A equipa possuía um enorme potencial. Na segunda fase, de apuramento de campeão, visitava-nos o todo poderoso F.C. Porto, até aí intocável. Mas a surpresa, e que surpresa!, aconteceu: os portistas sofreram no "Carvalhal" o único revés da temporada. Saíram derrotados por 1-0. Fernando "de Rebordosa" foi o autor do solitário e histórico golo que humilhou a grandeza de um clube recheado de vedetas (Almeida, Pavão, Piruta, Miranda, Ernesto, Lázaro...) e consagrou Agostinho "Rita", protagonista de uma exibição sensacional, defendendo tudo o que havia para defender. Incrédulos ficaram os "dragões", pálidos de amargura, inconsoláveis.
Do nosso lado, perante multidão delirante, abraços atrás de abraços. "David tinha vencido Golias".


1964/1965 - Equipa que venceu o F.C. Porto por 1-0
Em cima: Zeca "Mirra" (treinador), Zeca "Pequito" (massagista), Agostinho "Rita", Domingos "Faria", Henrique Costa, Jacinto, Jaime "de Carvalhosa", Zeca Peixoto, Cunha, Manuel "Pirata" (dirigente).
Em baixo: Justino "Guerra", Fernando "de Rebordosa", Quim, Xico, Abel

Mas o mais engraçado aconteceu minutos antes do início do jogo: talvez para "espicaçar" o grupo, a directoria, pela voz de Nelson Lopes, prometera uma arrozada de frango a todo o plantel, no "Popular" do Américo "Caixa", se a vitória caísse para o nosso lado. Quem pensaria em tal façanha?!.. O certo é que tiveram mesmo de abrir os cordões à bolsa e cumprir com a palavra. Nem mais.»


A Direcção prometeu e... cumpriu. Com todo o prazer.


Apetite, pelos vistos, não faltou

A partir daí, para Zeca "Mirra", foram mais dez anos ligado a esta causa. Sem desfalecimentos, com enorme paixão. A correr constantemente o campo todo, pela parte de fora, se o jogo corria mal. Nunca se sentava no "banco". E se assim fosse, porque os jogadores não obedeceram às suas recomendações, era vê-lo entrar nos balneários, ameaçando a terra e o mar. Depois, serenava e lá o tínhamos jovial, com uma palavra de conforto, uma atitude de compreensão que dava alento à rapaziada.
Até um dia em que...com muita mágoa, teve de partir. Vinte anos foi muito tempo, é verdade. Mas podiam ter sido mais. Houve, contudo, inadvertidamente, quem não quisesse. Modernices! Foi pena.
Modesto, passou a viver afastado da popularidade, praticamente ignorado - é assim a memória das pessoas, egoísta. Se a grandeza dos homens não fosse avaliada pela ostentação, prepotência ou arrogância, antes sim pelo carácter, honestidade e rectidão, talvez Zeca Mirra tivesse um lugar mais consentâneo nos anais do Clube.
Somente em finais da década de oitenta alguns dos seus "ex-meninos" proporcionaram-lhe momentos de convívio, de alegria, de nostalgia.
A "festinha", bem organizada, nada sofisticada, antes saída do coração, teve o condão de reunir à sua volta antigos atletas, muitos, os que puderam marcar presença, para um sentido abraço de amizade e gratidão.







José Monteiro dos Santos, o "nosso" Zeca Mirra foi, é, e continuará a ser, quer queiram ou não, uma referência inquestionável no que ao S.C. Freamunde diz respeito.
O tributo que lhe foi prestado pela direcção do S.C. Freamunde, no dia 19 de Março de 2010,  data comemorativa da fundação do Clube azul e branco, a pequena e singela homenagem (distinguido com o mérito desportivo), a justiça, por que não dizê-lo!, chegou um pouco tarde, correu alguns riscos, mas ainda a tempo.
A nós, freamundenses, os que amam o clube, que reconhecem os seus "heróis", que "viveram" intensa e apaixonadamente o "Carvalhal", só nos resta agradecer-lhe: OBRIGADO, SENHOR JOSÉ: 



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

DOS FRACOS (?) TAMBÉM REZA A HISTÓRIA - "BICHA DA BOUÇA"

JOAQUIM FERREIRA TAIPA "BICHA DA BOUÇA"
1908(?) -1985

Era uma vez um jornaleiro, filho de Claudino Ferreira Taipa e Rosalina Pereira do Carmo, de nome Joaquim, carinhosamente tratado por "Bicha da Bouça", talvez por ter nascido e residir no lugar da... Bouça, nesta freguesia.
Pobre como era, perguntava-se, certamente, na altura o que lhe iria acontecer; testemunhos de gente da sua geração, pessoas credíveis - não sou dado a certas "fontes" -, descrevem-no como alguém alimentado mais a sonhos que a outra coisa qualquer.
Produto de uma família que mal tinha dinheiro para o pão e vinho sobre a mesa, que sempre viveu à rasquinha, cedo teve de se fazer homem à pressa e ir trabalhar à jorna, no duro. Ganhar algum para que os dias não fossem tão dolorosos. Assim atravessou a meninice. Sem escola, sem as brincadeiras de crianças passadas à sombra das frondosas tílias (uns anos mais tarde substituídas por plátanos), no largo da Feira, onde os pássaros, imensos, davam voz às árvores; sem esperança que o "trabalho" o resgatasse da miséria. Miséria que, infelizmente, assombrava grande parte dos lares nesta terra. Neste país. A realidade, à época, era esta, bem diferente da actual. Tempos em que, às refeições, havia uma cabeça de sardinha para três irmãos. Em que os meninos andavam descalços. Pés descalços e roupas esfarrapadas. Com piolhos na cabeça e ranho no nariz. Assim mesmo!
Jornaleiro "documentado", perito na extracção de raizeiros e seu desmembramento (dizem que a "vontade" não era por aí além, custava-lhe bastante arregaçar as mangas, mourejar assiduamente), da vida, do que ambicionava, Joaquim nada obteve. Enquanto para muitos o descanso era o trabalho, Joaquim foi atacado por uma doença: o vinho. Iniciou cedo o seu processo de alcoolização, que lhe deu fama mas não proveito.
TASCA DAS ELVIRINHAS
As minhas memórias, as mais gratas recordações, levam-me aos tascos d'Arminda "da Couta", das Elvirinhas, do Américo, do 28, do Viana, do Manel "da Balbina"... Foi aqui, talvez, para Joaquim, o poiso ideal desde a juventude. Assim o demonstra a fotografia. De fato domingueiro e chapéu na cabeça, o "nosso" homem ostenta garbosamente a caneca de porcelana, mimada como ninguém, sempre na vazante. Era deste modo que perdia a inibição: "Bastava cheia!... Bastava cheia!"...

Joaquim exibe com certa vaidade a sua "cara metade"
E tão focado ficou na "matéria" que quase ignorou o resto. Quase, porque não era ele apenas que consumia álcool, era o álcool que o consumia.
Nunca casou, manteve-se eterna e orgulhosamente solteiro, mas "namorou", sem desfalecimentos, as "canecas" (de todas as castas, de feição escura, branca, rosé... Não era esquisito!), e não foram assim tão poucas, formando um casal perfeito. Por mais "brigas" que tivessem, não se separavam por nada. Sempre houve união e cumplicidade. Uma verdadeira história a dois. Sem interferências.
Com a morte dos pais, passou a viver sozinho na velha casa da "Bouça", sombria, mas que se manteve sempre de pé, quase a ruir, mas de pé, com alguns contornos mal definidos, propriedade do irmão, António, radicado no Brasil mas com procurador cá.
Para sobreviver, não encontrou outro "remédio":  estender a mão aos amigos. Que os tinha. Nunca se tornou o alvo preferido do desprezo e da chacota, grosseira e canalha. Não. Cumprimentador, todos lhe devolviam a gentileza, apesar do rosto fechado (não sabia sorrir, fazia apenas um esgar).
O.R.M., no jornal "Fredemundus", dedicou-lhe uma crónica, há vinte e cinco anos atrás, porque o admirava e conhecia relativamente bem. Eis alguns fragmentos: «...movia-se vagarosamente  pelas ruas e caminhos pedinchando aqui e acolá umas moedas que convertia no único prazer da sua vida: canecas de vinho e copos de bagaço. Quando o peditório era feito à porta de alguma habitação, a moeda recebida era justificada por umas orações ininteligíveis pelo resgate das almas dos mortos da casa. (...) Adepto das grandes verdades, simples como as gotas de chuva, ia, às vezes, ao cemitério inspirar-se para as suas reflexões sobre a vida e os seus prazeres. Ao constatar que no fundo das sepulturas, os defuntos, na sua imobilidade horizontal, não sentiam fome nem sede e estavam imperdoavelmente encarcerados na eternidade, descia veloz à loja do Manel "da Balbina" e entornava mais uns copos, com urgência febril, que amanhã poderia ser tarde».
E foi assim, na escadaria do cemitério, que o "apanhámos de ar cansado (só a "caniça" lhe erguia a espinha), nariz afilado, cabelos grisalhos, desalinhados, sem conhecer o pente há muito (havia simulado tirar o chapéu, para a saudação, logo que nos encarou),  sobrolho arqueado, cara de poucos amigos - o sorriso deixou de fazer parte da sua vida. A expressão do olhar era trágica e melancólica. De sobretudo cinzento desabotoado, cachecol, as frieiras das mãos agasalhadas nos bolsos das calças puídas, meias de cores distintas, botas abertas nas biqueiras, para "arejar", talvez a curar-se da última ressaca, que muitas vezes se sobrepunha à penúltima e à antepenúltima. Parecia confuso, e com razão. Tudo parecia desmoronar-se à sua volta.

O último registo de Joaquim Taipa "Bicha da Bouça" é esta fotografia desgastada pelo tempo, obtida, ocasionalmente, por Pedro Pedra, nas escadarias do cemitério nº 1 de Freamunde
Trocámos algumas palavras. Quando terminámos a conversa (discurso pouco fluído da sua parte mas fino e irónico) inclinou ligeiramente a cabeça, fixou-nos de esguelha e perguntou timidamente: - Não têm por aí vinte escuditos para uma sopinha (!) no Américo? Claro que tínhamos.
O "AMÉRICO" NA SUA TASCA

Depois de uma estadia no "Lar António Barbosa", em Paços de Ferreira, onde apenas asilava nos rigores do Inverno, foi encontrado inanimado na sua residência, com ferimentos na cabeça. Socorrido pelos vizinhos, a única "família" que possuía, e transportado para o Hospital de Paredes, aí faleceu serenamente  no dia 26 de Janeiro de 1985, em completa indigência.
O funeral fez-se, a acompanha-lo várias dezenas de freamundenses. Um dos "seus" estimados filhos que foi para a terra fria, como muitos outros que se vangloriaram ser ricos só porque tiveram dinheiro. Joaquim "concentrou e condensou no acto de beber todos os prazeres da sua vida".
A factura do cangalheiro e as dívidas na mercearia foram saldadas por um fundo de poupança efectuado por alguém bem intencionado e saído de uma pequena pensão de velhice que lhe tinha sido atribuída.
Desapareceu, assim, a figura de um homem singular, típico, matreiro,  castiço, de um lote de que já não resta ninguém. Os actuais não têm "pinta".



terça-feira, 8 de novembro de 2016

ALEXANDRINO CHAVES

ALEXANDRINO MARIA CHAVES FERREIRA VELHO

(31-08-1862 / 22-7-1913)



Alexandrino Maria nasceu na freguesia de Freamunde, fruto da união entre José Maria Ferreira Velho e Delfina da Conceição Chaves, baixados à sepultura nº 2 da Ordem Terceira de S. Francisco no mesmo ano de 1884 (17 de Dezembro e 30 de Outubro, respectivamente).
Teve dez irmãos: Augusto Maria "Reverendo", Ermelinda Rosa, Rosalina Augusta, Maria Augusta, Antero Maria, Abílio Maria, António Maria, Amélia Augusta, Adelino Maria e Albano Maria.
Digníssimo tabelião público no Julgado da Paz de Freamunde (cargo que não tinha ordenado estipulado e que dependia exclusivamente da confiança da "clientela"), com escritório na sua residência, em S. Francisco, viu-se envolvido, decorria o ano de 1896, em questiúnculas partidárias que visavam concessões chantagiosas - passar por cima de valores fundamentais em nome de um negócio mesquinho, a compra dos votos dos freamundenses, a uma "vaga" no tabelionado. O "lugar", conseguido a troco dum pesado sacrifício, foi-lhe disputado por José Cândido da Silva Torres, solicitador em Paços de Ferreira, com o apoio do partido monárquico, Progressista, no poder. O "movimento" esboroou-se e prevaleceu o bom senso: Alexandrino Chaves não foi obrigado ao vexame de dever o seu lugar a "cedências" políticas. Conseguiu-o por direito próprio. A honra não se vende.
Foi casado com Anna Pereira Aranha Torres, natural de Santa Marinha de Nespereira, Cinfães, viúva de Manuel Albino da Costa Torres, de Freamunde.
Alexandrino e Ana não tiveram filhos.
Alexandrino enviuvou em 12 de Março de 1900, vindo a contrair matrimónio, em segunda núpcias, no dia 10 de Dezembro de 1903, na Igreja Paroquial de Figueiras, com Ernestina Maria Gomes Rego, de 18 anos de idade, senhorinha de excepcionais dotes de beleza e coração, filha de António Ferreira Rego e Maria Gomes Rego. Estava, assim, preenchido o vazio da sua solidão.

Alexandrino Chaves e esposa Ernestina Maria
Deste enlace resultou o nascimento de dois filhos: António Maria e Ermelinda Maria.
Personalidade relevante, de frágil fisionomia (existem fotografias que mostram um homem franzino, esguio, barba aparada rente, mas de porte aristocrático), requintadamente aprumado no vestir, "bon vivant", cedo se embeiçou por causas nobres.

ALEXANDRINO CHAVES


A Associação de Socorros Mútuos Freamundense era a menina dos seus olhos, sendo por todos considerado um dos grandes impulsionadores da Instituição, tão útil e benemérita.
Serviu-a com denodo e paixão. Fez parte da comissão para a criação da mesma, em 1890. Até à sua morte, em 1913, foi relator do processo dos Estatutos, Tesoureiro da Comissão Provisória, e, por diversas vezes, Presidente e Secretário da Direcção, Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal.
Por justiça, foi-lhe concedida a presidência da 1ª Assembleia Geral que se efectuou no novo edifício da Associação.
A seu tempo recebeu significativa homenagem, com colocação de fotografia a "crayon" na galeria daquela Instituição, em 19 de Março de 1894, descerrada pelo padre Maximino Ferreira Alves. Já saudoso, em sessão ordinária de 8 de Fevereiro de 1914, pelo presidente da ASMF, António José de Brito, foi proposta pintura a óleo do benquisto benemérito, por um dos melhores artistas da cidade do Porto. A "obra" foi descerrada pelo padre Florêncio de Vasconcelos durante a sessão solene do 19 de Março desse mesmo ano.

ASMF
Diplomado, sabia muito, de tudo falava e escrevia, revelando-se também como músico de inegáveis capacidades, iniciação na arte propiciada por lições advindas de seu pai. Horizontes musicais abertos, piano, violino, flauta e clarinete eram alguns dos instrumentos que, com mestria, tocava nas reuniões dançantes, frequência das pessoas distintas da época. O seu fascínio pela cultura dos sons levou-o, inclusive, a dedilhar primorosamente uma cítara (guitarra com caixa de ressonância em forma de pêra). Tudo nele era sensibilidade artística, exemplo raro de virtuosismo, originalidade e criatividade.
Benemérito, ofereceu à Câmara Municipal, água para abastecimento do mercado, em Freamunde. O "nosso" povo, grato a quem servia e lutava desinteressadamente pelo progresso da Terra e seu bem estar, não se poupou a esforços e preparou para o dia da inauguração (16-04-1896) enormes festejos, «com música, foguetes e embandeiramento. A Praça, enfeitada com flores, tinha à entrada um lindo arco artisticamente construído onde se liam as iniciais A.C. (Alexandrino Chaves). Num ambiente de perfeito delírio, onde não faltou a vereação municipal, a população, numa manifestação espontânea de apreço e gratidão, passeou Alexandrino Chaves aos ombros».


As bicas da "velha" PRAÇA
Em 1896, deixou-se seduzir pelo teatro, aproveitando as receitas dos espectáculos para precioso auxílio e "empurrão" na edificação da Associação de Socorros Mútuos. As primeiras peças apresentadas foram o drama "Leonardo, o Pescador" e a comédia "Quem tem dinheiro... tem medo". Em 1898, ele próprio redigiu um drama original, "Ernesto, o Enjeitado", representado num salão por si construído no quintal da residência onde habitava, apelidado de "Teatro de S. José", mesmo com os escassos quadros humanos existentes para tão difícil tarefa.

O palacete onde viveu Alexandrino Chaves
Ele por si desempenhava os papéis de autor, ensaiador e de figura em cena.
Seguiram-se comédias e cenas cómicas... Outras... E depois outras...
As receitas de "bilheteira" ( a "casa" era passada à gente da "elite") ajudavam, e muito, a "erguer" a Associação.
A partir de 1904, porque se esfumaram quase todos os testemunhos contemporâneos, pouco se sabe da sua vida social, entregue que foi, nesse mesmo ano, a pasta de encenador a Henrique de Vasconcelos.
Mesmo assim, encontrámo-lo referenciado, em 1901, como "Juiz" das Festas em honra de S. Sebastião, reaparecendo, em 1913, na presidência das mesmas, já "convertido" ao vegetarianismo e com a doença (tuberculose), que o levaria à morte prematura, a miná-lo de forma galopante. Por sinal, sua esposa faleceria pouco tempo depois (9 de Outubro de 1914), com apenas 29 anos de idade, eventualmente vitimada pelo mesmo bacilo.
Curiosamente, já em 1899, o distinto tabelião havia sido incomodado com uma hemiplegia (paralisia que atinge uma das metades do corpo, a maior parte das vezes devido a uma lesão cerebral no hemisfério oposto), doença que, contudo, não se revelou de gravidade extrema.
Em 1909 (4 de Julho), na calorosa recepção a D. Manuel II, na passagem em Freamunde rumo a Amarante, ao Rei foi entregue uma mensagem que levou a assinatura, entre outras, de Alexandrino Chaves.
Na ribalta política, parece ter-se dedicado aos preceitos monárquicos.
Alexandrino Chaves desceu à terra para todo o sempre no dia 22 de Julho de 1913, curiosamente poucos dias após ter servido, como "Juiz", aos festejos do Santo Mártir.
Ainda há pouco tempo (!) havia gente (César Ribeiro, por exemplo) que carregava memórias do funeral: « Indiscritível, medonho! Nunca assisti a um cortejo fúnebre tão imponente e sentido. A emoção atingiu o clímax. A terra inteira veio para a rua. Gente do campo, gente humilde que se despedia do amigo, do freamundense de gema. Alas de pessoas, que cresciam a uma velocidade impressionante, de archotes acessos ao longo do percurso».    
Pessoas, todos os sócios que o próprio presidente da Assembleia Geral da ASMF havia convocado em sessão extraordinária para, em elogio, fazer-lhes sentir a «dolorosa e irreparável perda do inolvidável protector da Associação. Dos seus mais firmes e constantes sustentáculos. O seu trabalho e o seu dinheiro nunca faltaram quando a elle se recorria. Foram de tal ordem o zelo e dedicação que este benquisto benemérito da Associação a ella se consagrou, foram de tal magnitude os seus serviços que difícil se torna innumera-los numa simples acta de sessão. Por bem conhecidos e avaliados, eles deverão ficar perpectuamente gravados no coração reconhecido de todos os sócios, que nelle perderam o mais valioso e desinteressado companheiro, e dele herdaram o mais salutar modelo a imitar».
Seria, pois, uma falha, uma injustiça de todo o tamanho, não exaltarmos, não darmos a conhecer, a grandeza do homem, do cidadão Alexandrino Chaves, seu carácter e envolvimento nas causas sociais e culturais do torrão que o viu nascer.
Afirmamos com toda a segurança, que a sua obra, a sua personalidade de criador, a sua inteligência, o seu bairrismo, foram e continuam a ser apreciados por todos os freamundenses.
Pasmo como foram necessários mais de oitenta anos após a sua morte para que Freamunde homenageasse, em placa toponímica, um dos vultos mais relevantes que a serviu.
Nesta matéria, andava muita gente distraída. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

QUIM "LOREIRA"

JOAQUIM CARNEIRO DA SILVA "QUIM LOREIRA"
(27-02-1927/17-021993)


 
Filho de Joaquim Carneiro da Silva e de Joaquina de Sousa, era membro de uma família humilde, modesta mas considerada de Freamunde, "Os Loreiras", nascida e criada na Gandarela, lugar emaranhado de ruelas e becos, na época em que o facto constituía um drama, querendo dizer, simplesmente, ser pobre.
Também lá nasceram, certamente, advogados, médicos..., mas a maioria era "pé descalço".
De corpo franzino e seco, bigode à Clark Gable, rosto marcado por uma vida de dura luta, certo dia, em animada cavaqueira junto ao Café Teles, falou, para um grupo de amigos, das suas aventuras e dos caminhos que trilhou. Dos tempos difíceis.
Antes, levantou e rodou ligeiramente a gorra que sempre trouxe. Sei lá quantas vezes! Nem os dias amenos o faziam destapar a cabeça, senão dentro de casa ou nas saudações às pessoas "respeitáveis".
Depois, lá desembuchou: - «Sabem, nesta nossa terra, neste nosso país, nas décadas de quarenta, cinquenta, sessenta..., onde os pobres viviam com evidentes sacrifícios, onde os árduos trabalhos lhes estavam destinados, também eu comi o pão que o diabo amassou. Corri o mar e a marinha à cata dessa coisa que é viver. A juventude de hoje não faz a mínima ideia do sofrimento da maioria das pessoas desse tempo».
Lembra-se de ir à escola, de conhecer as letras do alfabeto, mas não suficiente para ter aprendido a ler.
A memória não lhe chegava, sequer, para precisar a idade que tinha quando foi trabalhar: treze, catorze anos..., talvez.
Educado nos valores tradicionais - seu pai trabalhava a pedra como ninguém -, "empurraram-no" para outra actividade correlativa: ainda menino entrou para mineiro. Aqui e ali, biscates de pedreiro ou calceteiro. Mas sobretudo mineiro.
De farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e a ferramenta na outra, os picos logo lhe ocuparam o tempo como aprendiz, escavando metro após metro, numa vida inteira feita de risco e de força..., risco que fazia parte do seu dia a dia. Trabalhava descalço sob o lodo e pedras afiadas, até sol posto. O ofício exigia experiência e lucidez, caso contrário podia ficar soterrado. A alguns nem Santa Bárbara lhes valeu. Outros ficaram com sequelas irreversíveis, sobretudo nos pulmões.
É que por aqui pouco mais havia. Nem todos podiam ir laborar para a "Fábrica Grande" ou do "Calvário".
Mas foi assim que começaram a "entrar" em casa alguns tostões. Numa família com muitos filhos toda a ajuda era pouca. Os poços matavam, é verdade, mas também davam de comer.
A morte inesperada do pai foi um rude golpe para o "nosso" Joaquim, abruptamente desligado da pessoa de quem dependia emocionalmente. Sobrava-lhe o apego tão intenso à mãe. Sempre solteiro, será que alguma vez namorou?
Os anos foram passando sem nunca ter diminuído o ritmo de trabalho, sem vacilar às armadilhas do tempo. Mas a vida, tantas vezes injusta, pregou-lhe uma partida, deixando-o quase cego. Porém, só tarde, a conselho médico, fora afastado do ambiente sórdido, duro, doentio, onde passava o tempo e a saúde se lhe esvaía.
Elogiar as capacidades cívicas e humanas de Quim "Loreira" não é difícil. Nos olhos, nunca lhe vislumbrámos lágrimas de tempos dolorosos. Era alguém que gostava de viver, um indivíduo alegre, bem disposto. Era alguém profundamente contagiante. Não havia conterrâneo que o desprezasse.
Bairrista dos sete costados, inteligente, de fino humor, com "veia" de artista, Quim "Loreira" sabia, mesmo sem "letras", usando a ironia, analisar a sociedade, retratar muito bem Freamunde e os seus "agentes" da segunda metade do século XX.
Empenhado também em manter o seu apelido nas bocas do mundo, assinou momentos inesquecíveis, chegando mesmo, em momento de inspiração, a gravar todo o seu vasto "repertório".


 
Música - sem que tocasse qualquer instrumento ou integrasse a filarmónica, cantava o fado por excelência, com "arranjos" da sua autoria - e poesia, declamada a preceito, eram assunto sobre o qual Quim "Loreira" não se fazia rogado.
Deixou-nos "matéria", o que é estimulante.
De temperamento tímido, libertava-se com o "copito", raras vezes em demasia, sem provocar desacatos, sem desbaratar na taberna e no vício do tabaco, que estragavam a saúde e prejudicavam a família.
Quando morreu, o funeral foi concorridíssimo e deu para ver quanto o estimavam.
Jaz no cemitério nº 2 de Freamunde, Terra que ele amou e exaltou como ninguém.
Com o desaparecimento de Quim "Loreira", morreu um pouco do nosso torrão, foi-se uma das suas matrizes mais puras e originais. Um ramo da "nossa" palmeira.
A melhor homenagem será lembrá-lo de vez em quando. Uma das razões para o esquecimento é, quase sempre, a fraca memória das nossas gentes, o estrato social (não era rico, pelo contrário), e a "tendência" para a ingratidão.
Deixou saudades, o QUIM "LOREIRA".
 
Orgulhe-se a Gandarela,
orgulhe-se a terra inteira:
a sua filha mais bela
deu à luz o Quim Loreira.
 
Pela mão dos sardinheiros,
sob sorrisos e abraços,
junto à Fonte dos Moleiros,
deu os seus primeiros passos.
 
E depois subiu à Feira
perdeu-se pela palmeira,
do fundo do coração.
 
e pela festa da vila
é por aqui que ele asila,
p´ra lhe fazer um sermão.
 
                                        Rodela
 

 
 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

CORONEL BARREIROS

CORONEL BARREIROS
 
(10-8-1893 / 23-8-1965)
 
 


 
 
De nome próprio: José Baptista Barreiros.
Do enlace com D. Maria da Conceição Alves da Cruz (irmã, entre outros, de Dr. Alberto e Arnaldo Cruz), da Casa da Igreja, Freamunde, resultou o nascimento de duas filhas: Maria Elvira e Maria Cristina.
Muito novo, frequentou as Faculdades de Ciências (Matemática) e Direito, em Coimbra, e tirou o curso superior da Escola de Guerra (1916/1917).
De uma crónica assinada por A.M., de Braga - pessoa autorizada e com conhecimento de fontes capazes de melhor ficarmos a conhecer a personalidade do distinto Coronel, de talhe bem militar, metódica, calma, distinta, e arrumada na interpretação dos factos históricos a que por muito tempo ligou seu nome em ribalta de grande responsabilidade deixada por Rocha Martins -, e publicada no jornal regionalista "Gazeta de Paços de Ferreira", alguns respigos, como preito de admiração e gratidão a tão ilustre figura, que dispensou a Freamunde larga predilecção:
« (...) Os lugares que exerceu em Braga, onde fez uma grande parte da sua carreira militar, alguns por mero acidente, como os de presidente da Junta Distrital, pouco interessam para a compreensão da sua figura, que era estruturalmente a de um patriota, a de um republicano e a de liberal, embora, por vezes, circunstâncias fortuitas o houvessem aparentemente desviado do caminho de uma plena afirmação de princípios e atitudes.
Tinha, porém, um pronunciado sentido do dever e da capacidade de servir e assim, posto que afastado, por convicção, das actividades políticas directas desde 1926 (era então comandante da P.S.P. do distrito), nunca recusou a sua colaboração, mostrando maior ou menor entusiasmo, em benefício dos valores morais e culturais do povo e da Pátria através da defesa e da proclamação dos seus direitos tanto na sua própria conduta pessoal como nos seus trabalhos de pesquisador e de ressuscitador de velhos textos, em que bebia a força alentadora do seu testemunho de português consciente.
Após a sua passagem à reserva, em 1953, consagrou-se apaixonadamente com devoção e persistência, a uma fecunda tarefa de historiógrafo positivista, escrevendo magníficos ensaios e elucidativas crónicas sobre relevantes acontecimentos e vultos nacionais.
Possuía aptidões natas de investigador, um raciocínio claro, um sólido bom senso, uma lucidez penetrante no comentário, um critério esclarecido, uma segura prudência no avançar julgamentos e no extrair conclusões, uma prosa correntia de expositor, uma larga soma de conhecimentos especializados, um arreigado gosto pelas coisas singelas ou fabulosas do passado.
(...) Não deixou uma obra de envergadura, susceptível de traduzir o conjunto dos seus méritos e das suas possibilidades, decerto porque o não permitiram as limitações da sua existência. Em todo o caso coligiu subsídios e exumou documentos de real importância.
 
Premiado diversas vezes pelos seus trabalhos publicados na "Revista Militar", onde assiduamente colaborou, o coronel Barreiros, que também foi professor nos Altos Estudos Militares, era um técnico abalizado, com a excepcional competência de quem ocupa jubilosamente um lugar para cumprir uma missão em favor da grei: filho do povo, rendeu sempre a sua homenagem ao povo, com inalterável respeito.
Foi episódico o seu trânsito pela Santa Casa da Misericórdia - aí quis também por inteiro colocar-se ao lado do povo, mas acabou por renunciar ante um mundo de dificuldades e de inibições a que o seu temperamento e a sua educação de militar não se adaptavam de ânimo leve - e a sua presidência na Junta Distrital, quase desde logo assinalada pela doença, não lhe deu oportunidades, por tão curta, de empreender um novo programa de realizações.
Mas a sua acção de patriota, livre de compromissos, à frente da delegação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, cuja criação e desenvolvimento quase exclusivamente se lhe devem, conquistaram-lhe um prestígio tangível, sem benevolências nem convencionalismos, que se prolongou até final».
Foi de sua iniciativa a compra do Palácio dos Biscainhos para instalação do Museu de História, Arte e Etnografia, a promoção de Feiras, Exposições, Congressos, manifestações de carácter patriótico para comemorar datas nacionais.
Destaque para as condecorações de Comendador de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis e a Medalha de Mérito Militar.
A notícia do seu súbdito desaparecimento, calou fundo no sentimento de todos os habitantes da Vila de Freamunde, já escassa de valores.
Esta Terra, concelho incluído, mereceu-lhe sempre um carinho especial, sendo alvo de vários e aprofundados estudos.
Deve-se-lhe a monografia de Freamunde, de alto valor histórico.
 
 
 
Em edição da Associação de Socorros Mútuos Freamundense foi publicada, em 1957, uma comunicação da sua autoria, apresentada ao Colóquio Bracarense de Estudos Suévicos Bizantinos, sob o título "Uma povoação Suévica da Chã de Ferreira - A Vila de Freamunde".
 
"Portugal de ontem e de hoje na sua missão histórica", foi a legenda de uma notável conferência pronunciada em Junho de 1961, na sede daquela Associação de Socorros, a que presidiu o Chefe do Distrito, Brigadeiro Gonçalves da Silva. Este trabalho foi depois editado pela Câmara Municipal.
Em 1957, a direcção do Clube Recreativo propôs sócio benemérito da Colectividade, o coronel Baptista Barreiros, pela valiosa colecção de livros que gentilmente ofereceu (onde param?), para o enriquecimento da Biblioteca, decisão aprovada por unanimidade e aclamação.
É, pois, «altamente gostoso o sentimento que Freamunde, de lés-a-lés, devota ao saudoso coronel José Baptista Barreiros. Adventício da terra, teve por ela amor estranho e por ela queimou muitos dos poucos vagares em busca de elementos para a história de Freamunde».
Em 1983, por alturas das comemorações da elevação de Freamunde a Vila (Cinquentenário), o seu nome ficou eternizado em placa toponímica: Rua do Coronel Barreiros (da Rua D. Mercedes Barros à Rua Brigadeiro Alves de Sousa).
 
 
 
 
 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOM ANTÓNIO TAIPA
 
BODAS DE OURO SACERDOTAIS



 
 
...E tudo começou assim:
...Desde pequenino que falava que ia ser padre, contra a vontade do meu pai que tinha uma alfaiataria e precisava do auxílio do filho para que o negócio tivesse continuidade. Os estudos ficariam, pois, para trás. Escapadelas?!... Só para o "pontapé na bola", nem que chovesse! - recordou a irmã, Maria Ângela, ideia corroborada por Vitorino Ribeiro, amigo de infância de António Taipa.

António Maria Bessa Taipa; Maria Olívia Bessa Gomes (Mãe); Maria Ângela B. Taipa (Irmã); Daniel Oliveira Taipa (Pai)

 
Mas o "caminho" estava traçado: concluído o exame de admissão, passou a frequentar, entre 1954 e 1966, os seminários diocesanos de Ermesinde, Trancoso, Vilar e Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, onde cursou filosofia e teologia.
A ordenação sacerdotal, foi-lhe conferida no dia 15 de Agosto de 1966 na Sé Catedral do Porto por D. Florentino Andrade e Silva 
 
MISSA NOVA:
«Pelas 11,00 hrs do dia 21 de Agosto de 1966, com a Igreja Matriz de Freamunde repleta, começou a missa celebrada pelo neo-presbítero, acolitado pelo pároco local, José Augusto Sousa, e por dois condiscípulos e amigos, estando a parte coral a cargo de um grupo de seminaristas e de jovens freamundenses. A homilia foi da responsabilidade do Rev. Alves Dias que enalteceu as grandezas do sacerdócio, e às lavandas serviram o pai do novo sacerdote, Daniel de Oliveira Taipa, e seu avô materno, Joaquim de Bessa Ribeiro.



 
Terminada a cerimónia do beija-mão, organizou-se um cortejo, abrilhantado pela Banda de Música local, em direcção à propriedade de D. Glória Vieira e irmãs, onde foi servido o almoço a cerca de duas centenas de pessoas.





 
Na altura própria, brindaram pela felicidade do novo sacerdote, o Rev. Alves Dias, o pároco local, um seu antigo condiscípulo, o Rev. Domingos Moreira, José Maria Pinto de Almeida e o Dr. João Neto.
Lidos diversos telegramas de felicitações, encerrou a série de brindes o Rev. António Maria de Bessa Taipa que, emocionado e reconhecido, agradeceu todas as provas de amizade e estímulo».
Rev. António Taipa ladeado pelos pais

Rev. António Taipa ladeado pelas irmãs Maria Ângela e Gracinda
 
Já ordenado presbítero, entra no Seminário do Paraíso, na Foz, como prefeito e professor.
No ano seguinte vai estudar para a Universidade Gregoriana, na cidade de Roma, Itália, onde faz a licenciatura em Teologia Dogmática e no Pontifício Instituto Bíblico a licenciatura em Sagrada Família.
Já com o ilustre e carismático Bispo D. António Ferreira Gomes no "governo" da Diocese do Porto, é nomeado, em Outubro de 1972, prefeito e professor de Sagrada Escritura e Teologia Dogmática do Seminário Maior, mais tarde Instituto de Ciências Humanas e Teológicas (ICHT).
A partir de 1987 torna-se docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

ORDENAÇÃO EPISCOPAL:






Na tarde do dia 18 de Abril de 1999, os sinos da Sé Catedral repicaram em anúncio da ordenação episcopal do Bispo auxiliar do Porto, D. António Maria Bessa Taipa, tendo sido Bispos ordenantes D. Armindo Lopes Coelho, D. Júlio Tavares Rebimbas e D. João Miranda Teixeira (Significativa a presença das Igrejas Irmãs Lusitana, Anglicana, Metodista e Luterana alemã, em sinal da unidade de Missão que cada vez mais se assume e, em momentos mais significativos, também se exprime). Ordenação que juntou, também, dezenas de sacerdotes, bispos, seminaristas,  autoridades civis, familiares e muitos freamundenses. A sentida ambição materializava-se em realidade.


Nomeado pelo Papa João Paulo II, a 22 de Fevereiro, o "dilecto filho" do clero portuense recebeu a difícil tarefa da pregação do Evangelho, de impedir a degradação da religiosidade, levando a palavra de Deus até aqueles que experimentam o "pesadelo do sonambolismo".
O homem de gostos simples, filho de Freamunde, terra que o viu nascer a 11 de Novembro de 1942, aceitou, de joelhos, a antiga missão dos apóstolos que lhe confiaram, enunciando a sua felicidade:
«... Sinto, de um lado, o sentimento da fraqueza, da limitação, da incapacidade radical diante da missão que me é confiada; do outro lado, a certeza da fé que é o Senhor que me chama e de que nada me faltará. Por isso, lhe agradeço por ter querido servir-se de mim para o seu instrumento na sua obra de salvação dos homens. Feito bispo para o meu povo, sinto e vivo esta consciência: que me devo também à comunidade onde nasci e cresci, à comunidade onde Deus me encontrou. E penso na minha família. Uma família grande, simples e pobre, mas rica de uma felicidade que só o Senhor conhece» - Excertos do "Jornal de Noticias" que noticiou, assim, o acontecimento, enchendo as páginas interiores na edição do dia seguinte. Mas não só.

"Voz Portucalense":
«..."Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho" - foi a proclamação mais forte na celebração episcopal de D. António Maria, bispo auxiliar do Porto, na Sé.
Apresentado por dois presbíteros, os padres Jorge Cunha e Manuel Mota, do Seminário Maior, D. António Maria fez a sua confissão de Fé e promessa de obediência pastoral, prostrando-se depois por terra enquanto se cantavam as ladainhas dos Santos. Realizou-se depois a imposição das mãos, oração de Ordenação, unção com o Santo Crisma e a entrega do Evangeliário. Foi-lhe entregue depois o anel, a mitra e o báculo, sinais da Missão em que é investido.
O canto do Coro, com Orgãos e Metais, e o profundo significado desta acção litúrgica penetraram de tal modo as pessoas que se criou um ambiente marcante e cheio de interioridade».


 "Comércio do Porto":
«... Não esquecendo a comunidade onde nasceu e cresceu, a família, os párocos e catequistas que o introduziram nos ministérios da Fé ou a "Igreja do Porto", D. António Taipa teve uma palavra especial para D. António Ferreira Gomes, que o admitiu ao seminário, D. Floriano, que o ordenou presbítero, e D. Júlio Tavares Rebimbas, com quem trabalhou seguidamente.
Mas a menção especial foi, sem dúvida, para o seminário e os seminaristas, "alavanca na minha esperança e na minha fé nesta nossa querida Igreja"».

"Gazeta de Paços de Ferreira":
«... O templo (Sé Catedral do Porto) tornou-se pequeno para acolher centenas de amigos de D. António, principalmente da vila de Freamunde, estando a Câmara Municipal representada pelo seu presidente, Prof. Arménio Pereira».

"Imediato":
«...Foi de emoção a cerimónia de ordenação de D. António, em especial para todos aqueles que de Freamunde, e não só, se deslocaram à Sé do Porto.
Em carta de nomeação, em 22 de Fevereiro, João Paulo II termina dizendo: "Nesta hora, recomendamos-te, dilecto filho, que confies todo o teu empenhamento a Cristo que inaugurou o reino dos céus na terra e nos revelou os mistérios divinos"».

"Tribuna Pacense":
«... A Diocese do Porto acaba de ser enriquecida, com a nomeação do novo bispo auxiliar - D. António Maria Taipa.
Motivo de rejúbilo para as nossas gentes, o facto de ser oriundo (Freamunde) destas Terras de Ferreira».

"TVS - Terras do Vale do Sousa":
«... É de Freamunde o novo Bispo Auxiliar do Porto. A alegria de uma freguesia que nunca teve um bispo foi materializada».




"FREAMUNDE RECEBEU O SEU BISPO EM CLIMA DE FESTA "

No dia 24 de Abril de 1999, Sábado, Freamunde "viveu um dia de alegria e orgulho incontido".
"Ele é nosso! É de Freamunde". Era o sentimento generalizado na população que viu nascer e crescer o seu "menino querido" António Maria Bessa Taipa.
Antes do jantar/festa, organizado por uma comissão liderada pelo pároco local, Rev. Arnaldo Meireles, aconteceu o momento de maior simbolismo: o cónego António Taipa, já como Bispo Auxiliar do Porto, celebrou uma eucaristia, no "Pavilhão das Sebastianas", repleto de fiéis, cerimónia abrilhantada por um grupo coral dirigido pelo diácono Pedro.
No termo da eucaristia representantes da Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Colectividades desportivas e recreativas da terra, ofertaram a D. António várias lembranças.
A homenagem terminou com um jantar/convívio, no salão da "Carfel", espaço gentilmente cedido pelo seu sócio-gerente, Carlos Felgueiras, onde marcaram presença cerca de 400 pessoas. O reconhecimento público da paróquia e do orgulho dos freamundenses pelo filho da terra, simples, sabedor, piedoso e prudente, a quem foi entregue um báculo, bordão utilizado nas cerimónias litúrgicas como sinal da jurisdição dos bispos.
Foi uma "Festa" de emoção. Como emotivos e comoventes foram os agradecimentos de D. António nas palavras finais.



"JUBILEU SACERDOTAL"

Dom António celebra hoje, 15 de Agosto de 2016, o Jubileu de 50 anos de ordenação presbiterial.
A efeméride é assinalada com a celebração da Eucaristia, às 18,00 horas, na Igreja Matriz de Freamunde, que contará com a presença de entidades eclesiásticas, civis e militares, amigos e fiéis.
A celebração Eucarística é organizada pelo "Deo Gracias Coro Litúrgico", elementos de outros coros existentes na paróquia de Freamunde e a colaboração da Associação Musical de Freamunde.

PARABÉNS, D. ANTÓNIO
PARABÉNS, FREAMUNDE